Em As Filhas da Mãe.

O contrato de Tony Ramos com a Globo lhe garante pelo menos seis meses de intervalo entre o final de uma trama e o início da produção de outra. Mas a paixão pelo trabalho faz com que o ator seja o primeiro a subverter esta regra. Foi assim com Cabocla. Tony estava em Portugal, em excursão com a peça Novas Diretrizes em Tempos de Paz, quando recebeu uma ligação do diretor Ricardo Waddington. Cheio de dedos, ele pedia apenas para que o ator “desse uma olhada” nos seis primeiros capítulos da novela. Mas Tony não conseguiu passar do terceiro. “Parei, liguei na hora para ele e disse: ‘Estou dentro!'”, conta o intérprete do Coronel Boanerges, sem perder a chance de reproduzir o entusiasmo do momento.

A pouco menos de três meses do final do trabalho, o ator já decidiu repetir a dose: vai emendar a novela na minissérie Mad Maria, também de Benedito Ruy Barbosa. “Mas, depois da minissérie, não há a menor possibilidade de eu fazer teatro ou o que quer que seja. Vou ficar quietinho, uns 40 ou 50 dias, em algum canto”, avisa, entre risos. Benedito tem boa dose de responsabilidade sobre a “maratona” de Tony. Os dois nunca haviam trabalhado juntos e viviam se cobrando o “encontro” quando se esbarravam nos corredores da emissora. “Acho ótimo que tenha acontecido agora, numa novela admirável, que fala da importância do voto, das intolerâncias do ser humano e dos valores da família”, ressalta, em fala elétrica.

Aos 56 anos de idade, Tony é um árduo defensor da família. Tanto que não abre mão de passar ao lado da sua os momentos de lazer: “Adoro brincar com meus netos”, entrega. A cada trabalho concluído, ele e a esposa, Lidiane, viajam para um novo destino “quase secreto”, conhecido apenas pelos filhos, Rodrigo e Andréa. O ritual é repetido também quando ele se depara com um novo personagem. É com Lidiane que Tony troca as primeiras impressões sobre seus papéis. “Discutimos a temática da história. Se já tenho algum texto, digo e vejo o que ela acha da voz, do gestual, das intenções”, enumera o ator, que nunca teve paciência para laboratórios. “Meu laboratório é a observação, o silêncio interior, o ócio”, conclui, com um sorriso tranqüilo.

Escolha precoce

Aos 14 anos de idade, o paranaense Antônio Carvalho Barbosa fez sua primeira aparição na tevê, no programa de esquetes Novos em Foco, da TV Tupi. Na própria emissora, já “batizado” de Tony Ramos pelo diretor Ribeiro Filho, o ator fez diversas novelas, dentre as quais destaca Antônio Maria, Nino, o Italianinho, Vitória Bonelli e Ídolos de Pano. Em 1977, foi para a Globo, onde estreou em Espelho Mágico. Desde então, não saiu mais da emissora. Com 40 anos de carreira e uma lista de tipos inesquecíveis, Tony diz ser impossível apontar seus personagens favoritos. O ator mal consegue disfarçar, no entanto, o carinho por André Cajarana, de Pai Herói. “Até hoje, não há quem se encontre comigo acima dos 30 anos e não diga: ‘Ô, pai herói!'”, conta, com um sorriso orgulhoso.

Tony Ramos não esconde seu interesse pelos bastidores da tevê. O ator é um leitor voraz de livros que tratam desde a história das telenovelas até a tecnologia empregada nos estúdios. Participa constantemente de “workshops” e congressos relacionados ao assunto e já passou seis meses nos Estados Unidos para estudar televisão. Tanto afinco, garante ele, não esconde nenhum desejo de ser diretor. Apenas um enorme envolvimento com a profissão. “Sou um homem de televisão. E não estou aqui brincando. Tenho de ter uma responsabilidade social com o que faço”, justifica o ator.