Cerca de 90% dos alunos que os professores de ensino médio e fundamental julgam sofrer de retardo mental, dislexia, hiperatividade ou qualquer outra disfunção semelhante são, na verdade, vítimas de uma espécie bem diferente de malefício. São prejudicados por um sistema educacional que prioriza excessivamente os processos intelectuais e cognitivos diretamente relacionados à aprendizagem, esquecendo-se de que a emoção é um elemento inseparável a ela, algo fundamental à existência e ao bom funcionamento de qualquer escola. O que se percebe, porém, é que a escola é, muitas vezes, um lugar onde se reprimem violentamente os sentimentos e as emoções de crianças e adolescentes.

Sobre esse problema, a psicóloga Denise de Camargo, doutora em Psicologia Social pela PUC-SP, acaba de publicar um livro em que expõe os resultados de uma vasta pesquisa realizada com diversos estudantes de escolas públicas de Curitiba. Em As Emoções e a Escola (Travessa dos Editores, 195 páginas), a autora, por meio da análise de depoimentos de alunos sobre suas experiências em sala de aula, mostra de que maneiras a emoção, quando subestimada pelos educadores, pode interferir negativamente no processo de aprendizagem de qualquer um. Para realizar seu trabalho, Denise ouviu filhos de pequenos comerciantes, empregadas domésticas e trabalhadores braçais, de 12 a 15 anos, matriculados em típicas escolas públicas paranaenses, carentes de quase todo o tipo de benfeitoria.


Dentre suas principais constatações destaca-se a de que a evolução e o comportamento dos alunos estão diretamente relacionados aos sentimentos que eles nutrem por seus professores. Ou seja: gostar ou não gostar de um professor implicará em interessar-se ou não pela matéria que ele ministra; um vínculo afetivo, assim, seria mais do que vital para promover-se uma boa aprendizagem. Para que se criem e fortaleçam esses laços, no entanto, é preciso que se respeite a subjetividade de cada aluno. Algo difícil de se conseguir.

Infelizmente, a grande maioria dos professores crê que emoção e conhecimento são elementos reciprocamente excludentes. O corpo docente de várias escolas, assim, seria formado por educadores que não possuem posturas pedagógicas claras. "Como eles não lêem, muitos são consumidores dos chamados ‘falsos saberes da psicologia’", explica Denise de Camargo. "Assimilam conhecimentos que adquirem exclusivamente através da televisão, da mídia." Explica-se: alguns professores, após acompanharem programas televisivos sobre déficit de atenção, hiperatividade ou dislexia, acabam diagnosticando erroneamente seus próprios alunos. E prejudicando, sem sequer o perceber, toda sua carreira escolar e sua vida futura.

Pior: "Nossa escola de formação de professores não está preocupada com esse despreparo", denuncia Denise. "E precisamos despertar a sensibilidade estética dos nossos professores, torná-los capazes de realizar uma leitura sensível do mundo, fazer com que eles aprendam a ler a emoção nos olhos de seus alunos." Para a doutora, qualquer conteúdo escolar só vai ser absorvido por uma criança se aquilo passar pelo crivo de seus afetos. O conteúdo ensinado deve fazer sentido para os alunos.

Entre os casos examinados em As Emoções e a Escola, chamam a atenção os de Jandira, Roberto e Mara (nomes fictícios), em que os entrevistados – equivocadamente tidos como retardados nas escolas em que estudaram – relatam os traumas por que passaram, os maus-tratos que sofreram na mão de colegas e professores despreparados e, em decorrência disso, a luta que precisam mover para adaptar-se à escola e à sociedade em geral.