Se viva fosse, a revista TV Programas estaria completando, neste mês de maio, 44 anos. Foi o maior sucesso editorial do Paraná (e um dos maiores do Brasil), ainda não igualado, com mais de 20 mil exemplares por semana, circulação dirigida e presença obrigatória nas residências de Curitiba e arredores.

Pode-se dizer que tudo começou de uma brincadeira. De Luiz Renato Ribas e Rubens Hoffmann, então jovens funcionários da Receita Federal.

? A televisão dava os seus primeiros passos em Curitiba, com apenas dois canais em atividade: o 12, de Nagibe Chede, e o 6, dos Diários e Emissoras Associados – conta Luiz Renato, que também já era jornalista e trabalhava no extinto Diário do Paraná.

Prossegue ele: ?A programação, ainda incipiente e quase sempre eventual, era publicada nos jornais da capital. Rubens Withers Hoffmann, meu colega de trabalho, costumava recortar essas publicações e colá-las em uma folha de papel para facilitar as consultas. Um dia, perguntei a ele: ?Por que não montamos isso direito e publicamos? Pode dar certo?. Deu?.

Estava lançada a idéia e ali começaria uma vitoriosa jornada. O título escolhido, óbvio demais, pode não ter sido uma grande inspiração, mas funcionou plenamente e atendeu, desde logo, os objetivos.

Largada inicial

Uma garagem, no fundo do quintal de uma residência na Rua Francisco Rocha, próximo da Av. Batel, foi a primeira sede da publicação. Ali funcionava a redação, a revisão, a expedição e a distribuição. Um trabalho em família e entre colegas. Luiz Renato cuidava do texto; Rubens, da administração; João Hoffmann Jr., do cadastro de assinantes; João Batista Dias, da revisão; Rosy Hoffmann e Mário Rosa, da arte; Manoel Maia, da assessoria; Victo Johnson, da publicidade; Carlos Motta, das fotografias; e Rub Marcondes Baptista, da expedição. Os clichês eras feitos da Clicheria Record Ltda. e a composição e impressão, pela Gráfica Universal S/A. Os nomes dos destinatários eram coletados na lista telefônica, e o Departamento de Correios fazia a entrega.

? Na verdade, era um simples boletim de uma única folha, dobrada em forma de sanfona, com a programação semanal das emissoras de TV. A distribuição era gratuita, e uns poucos anúncios agüentavam os custos. Mas o público acreditou naquela iniciativa caseira e a prestigiou com entusiasmo – recorda Luiz Renato.

Rápida expansão

O objetivo inicial da dupla Ribas e Hoffmann era chegar a, no máximo, mil leitores. Só que três semanas depois já contabilizava três vezes mais. E isso fez com que os Correios decidissem suspender a distribuição, por entendê-la ?comercial?. A solução foi transformar o folheto em revista, grampeada, com novo formato, capa e miolo de 14 páginas. Os serviços gráficos passaram a ser feitos pela Papelaria Requião.

Na 52.ª semana, o número de assinantes era 5.700 e, no final de 1962, 11.200 famílias já recebiam regularmente em casa a revista, então com 36 páginas e 60 mil leitores estimados.

Em 1963, TV Programas deixou de ser gratuita. Era preciso comprovar a sua efetiva aceitação e utilidade junto ao público. Passou com louvor: as assinaturas se mantiveram e continuaram a crescer, atingindo a marca dos 18 mil exemplares. E a revista, ampliada para 44 e depois 52 páginas, chegou também às bancas de jornais.

Segredo do sucesso

? Talvez tenha sido o respeito ao público e a seriedade com que a publicação era feita – explica Luiz Renato Ribas. ?As informações eram sempre corretas, sem favorecimentos para A ou B, omissões ou segundas intenções. Jamais publicamos matérias pagas nem aceitamos anúncios políticos ou religiosos. A distribuição era eficiente e a remessa da revista rigorosa, chegando pontualmente na casa do leitor.?

Com isso, TV Programas, que adotou a figura da girafa como símbolo, expandiu-se ainda mais: chegou a Santa Catarina; promoveu espetáculos no teatro Somos o Show e no vídeo A Girafa se Diverte, No Reino de Papai Noel, Com a Pulga Atrás da Orelha; distribuiu álbuns de figurinhas, coleções de fotos de astros e estrelas da TV, decalcoplásticos, adesivos e chaveiros; publicou números especiais, como o primeiro e único Anuário da Televisão, em tamanho grande, com 68 páginas, reunindo fotos e biografias dos ídolos locais e internacionais, e uma edição comemorativa à eleição da Miss Paraná, Ângela Vasconcellos, como Miss Brasil. Esse projeto teve a agilidade de jornal, sendo todo executado na madrugada da eleição e colocado nas bancas no dia seguinte, com um total de 3.000 exemplares, esgotados em vinte quatro horas.

A partir de 1968, 22 de maio passou a ser considerado o Dia da Girafa. A revista chegou aos 20.180 exemplares e recebeu um elogio do publicitário paulista Wilson Thomaz, depois alto mandatário da Rede Bandeirantes de TV:

? Vocês estão fazendo a melhor revista de televisão do Brasil!

Testemunha ocular

Toda a história e a evolução da tevê da época, não apenas curitibana e paranaense, como também brasileira marcaram presença nas páginas de TV Programas. A chegada da TV Iguaçu, Canal 4, de Curitiba, do Grupo Paulo Pimentel, em 1967; a TV Coroados, de Londrina, primeiro dos Diários Associados e, depois, também do GPP; TV Esplanada, de Ponta Grossa; TV Tibagi, de Apucarana; TV Coligadas, de Blumenau; TV Cultura de Florianópolis… e por aí afora. O videotape, a TV em cores, as transmissões via satélite, a chegada do homem à Lua… Está tudo lá também.

Início do fim

Quando começaram a ser formadas as grandes redes nacionais e a programação a ser gerada no eixo Rio-São Paulo, a arte e as produções locais começaram a acabar. O golpe também foi sentido por TV Programas. Não havia como competir com as publicações nacionais, das grandes editoras, sediadas no nascedouro dos acontecimentos.

A revista, que completava 10 anos de vida, ainda tentou diversificar-se. A partir do n.º 501, aumentou de tamanho, passou a ser impressa em off-set e com cores internas, mas a luta foi inútil. A televisão se nacionalizara e nada mais havia a fazer. Cerca de dois anos depois, TV Programas deixou de circular.

O editor Luiz Renato Ribas, no entanto, faz questão de lembrar os importantes nomes da imprensa e das artes paranaenses que passaram pela redação e departamento fotográfico da revista: Irene Motta, Ariovaldo Kuntze, Valdir Silva, José Kalkbrenner Filho, Marcus Aurélio de Castro, Vinícius Coelho, Helmuth Wagner, Álvaro Borges, Diniz Bonni Lauri, Hamilton Rocha, Célio Heitor Guimarães, Enéas Faria, Aramis Millarch, Aroldo Murá, Roberto Portugal Alves, Rogério Borges, Victor Ferreira, Sylvio Ronald, J. Pedro Correia, Carlos Roberto Cunha, Mário Celso Cunha, Paulo Marins, Reinaldo Roda, Rosirene Gemael, Maria da Graça Reis, Hermes Astor Soethe, Luiz Alfredo Malucelli, William Sade, Dino Almeida, Tônio Luna, Jamil Snege, Luiz Carlos Zanoni, Euclydes Cardoso, Hamilton Faria, Álvaro Borges Júnior, Raul Lopes, Manoel Soares, J. G. Serra e Douglas Maravalhas.

Luiz Renato, pioneiro virado pra Lua

Luiz Renato Ribas (Silva) é um predestinado. Nasceu antes do seu tempo. Virado para a Lua, como se costumava dizer. E, por isso, esteve sempre à frente dos acontecimentos, com uma vida toda marcada pelo pioneirismo. Na área da comunicação, pintou, bordou, inventou, plantou e colheu. Se anda hoje um pouco fora de foco é porque esta terra, como se sabe, não costuma cultuar os seus melhores personagens e prefere viver envolvida nos modismos efêmeros de cada estação.

Mas as novas gerações precisam saber que inúmeros foram os projetos idealizados e desenvolvidos por Luiz Renato Ribas. Jornalista por profissão e pioneiro por vocação, começou editando, no final dos anos 50, um pequeno folheto sobre turfe – o primeiro a circular no Paraná -, distribuído entre os freqüentadores do Hipódromo do Tarumã, o Turfista Semanal. Depois, veio TV Programas, no início dos anos 60, revistinha sobre a qual tratamos no texto aí ao lado, que chegou a ser considerada a melhor publicação do gênero no Brasil, com uma tiragem superior a 20.000 exemplares por semana, de leitura obrigatória – uma fábula na época. Seguiram-se Direta, a primeira publicação semanal especializada em publicidade no País, que acabaria gerando o álbum História da Publicidade e da Comunicação do Paraná, o primeiro (e único no gênero até hoje), contendo a evolução histórica da comunicação e da publicidade em nosso Estado; Bem Bolado, informativo pioneiro dedicado aos apostadores da loteria esportiva; Guiatur, o primeiro guia turístico/gastronômico semanal de Curitiba e do Paraná; Programas, com as atrações e a programação artístico-cultural da cidade; e Curitiba Shopping, o primeiro jornal de serviços e ofertas da capital, em conjunto com o publicitário Bayard Osna.

Durante algum tempo, LRR andou se dedicando às artes gráficas. Criou a Digital e se tornou o primeiro a fornecer fotoletras, fotolitos e textos compostos eletronicamente para o mercado paranaense.

Em 1980, quando se começou a falar em vídeos caseiros, o tal ?home video?, eis que Ribas surge com o Tape Clube (hoje, Vídeo 1), a primeira associação de fãs e cultores do futuro e avassalador entretenimento. No Brasil de então nem se fabricava videocassetes e os poucos aparelhos aqui existentes eram importados, sem condições de reproduzir fitas nacionais. Luiz Renato deu um jeito nisso. Incentivou a indústria nacional e acabou liderando campanha nacional contra a pirataria. Na época, fizemos juntos o primeiro Guia de Filmes em Vídeo editado no Paraná.

Aliás, tive a honra de participar de praticamente todos os empreendimentos editoriais de Luiz Renato Ribas e, por isso, sou testemunha ocular de quase toda a sua caminhada, de olhos sempre pregados no futuro, e posso afirmar que não foi fácil acompanhar a inquietação, o dinamismo e a efervescência criadora desse paulistano de nascimento que tanto de seu talento deu ao Paraná. (CHG)