Parece que até o número da barraca foi escolhido especialmente pra ele: “51, uma boa idéia!”, diz Hélio Leites, confiando que não se trata de uma coincidência o lugar que ocupa na feirinha do Largo da Ordem todas as manhãs de domingo. Contrariando a correria delirante do típico ponto turístico de Curitiba, o artista enxerga beleza em cada detalhe ao seu redor.

Hélio é um criador de múltiplas artes: esculturas minimalistas, performance, poesia, teatro e contação de histórias. Um micro mundo feito de “personagens” de palitos de fósforos, botões, bonés e latas de sardinhas.

O “Rei do botão” é um contador de histórias e se vale dessa sua capacidade de imaginar para criar metáforas em lugar de descrever as coisas com rigor e precisão.

A movimentação na sua barraca não cessa – o que chama a atenção à primeira vista é a beleza das obras, ou “inutensílios” (como ele mesmo gosta de chamar). Depois de se aproximar e ficar por, ao menos meio minuto, somos envolvidos pelas suas palavras e causos sobre as coisas do mundo. “Todo o esforço recompensa, às vezes não é com dinheiro, mas com um lindo céu azul”, diz, olhando para cima.

Aos que chegam, ele presenteia com um botão, “mas não é botão de roupa, que serve para juntar duas partes de tecido. É um botão que tem a função de unir as pessoas”, esclarece o artista. E também o formato não lembra o artefato tradicional, o micro botão é um pequeno pedaço de papel adesivo com desenhos que lembram um amuleto.

Tem gente que diz que dá sorte, outros guardam pela delicadeza do gesto ou pelos desenhos, como o do poeta Fernando Pessoa ou do trabalho Marinhas – Arqueologia da morte, do fotógrafo Orlando Azevedo.

Quase tudo pode servir de base para ele sacar respostas criativas frente ao engessamento dos fatos do dia-a-dia. “Uma vez um cara passou por aqui, me deu um vidro de remédio vazio e perguntou se eu poderia usá-lo para alguma coisa. Daí eu fiz o santo remédio”, conta, mostrando o vidrinho com uma mini-escultura de um santo dentro do conta-gotas.

Ainda no setor de “medicamentosos”, ele inventou a injeção psicolúdica ou injeção de ânimo recheada com uma miniatura de São Francisco. “Você é maravilhoso”, diz um homem que se acumula em meio a tantas pessoas para conhecer o trabalho do artista.

“O Hélio é iluminado, é pura compaixão. E o melhor é que ele nos faz dar boas gargalhadas”, diz Christiane Mikoszewski, vizinha de barraca que fabrica sandálias orgânicas.

Arquivo
Todas as manhãs de domingo, artistas e amantes da cultura artesanal se reúnem na feirinha do Largo da Ordem, em Curitiba.

A própria figura dele diz muito sobre essa personalidade singular. O impagável topete grisalho, outro personagem de suas performances, está quase debutando. São 14 anos cultivando o pedaço de cabeleira que, por vezes, fica escondido no boné e, em outras, salta de lá feito uma caixinha-surpresa.

Os feitos do “significador de insignificâncias” adicionam sabedorias poéticas ao cotidiano caótico. Ele é o criador do Museu do Botão, um micro museu itinerante instalado em uma capa cravejada de botões, da ASSINTÃO (Associação Internacional dos Colecionadores de Botão) e é um dos fundadores da Escola de Samba Unidos do Botão.

Outra criação é a Igreja da Salvação pela Graça cujo lema é “Deus é humor!” O hinariador é o músico Carlos Careqa, a ogan é a artista Katia Horn, tendo a “Rainha dos papéis” Efigênia Rolim como madrinha e Hélio como pregador de botão.

O último “culto anual” aconteceu no ano passado e terminou por for&c,cedil;a das circunstâncias, como explica Hélio: “As pessoas levavam um baque ao descobrir que Deus também é humor, então preferimos encerrar as atividades. Agora pretendemos lançar um CD para que o culto possa ser feito em casa”.

Com a sua gentileza, a proposta do artista é ver e mostrar o que mais ninguém percebe, com o humor refinado e os esforçados jogos de palavras. Em um artigo, Paulo Leminski escreveu sobre o artista com essa característica de um homem que não se prende aos padrões estabelecidos: “Moderníssimo, fundindo gesto e performance com o emprego de material reles (perdão meus botões!) e “mail-art’, Lete (e a Assintão) vai conduzindo uma das experiências criativas mais importantes que tenho visto por aí, bem mais instigante e original que muitas vernissages de artes plásticas que não vão além do simples artesanato (ou industrianato, em muitos casos…).” Leminski termina o texto com uma irônica profecia: “”Ontem, o botão. Hoje, o assobio. Amanhã, o mundo”.