O autor de A Moreninha ironiza a disputa pelo poder

Nada mais oportuno, em um ano eleitoral tipicamente brasileiro, do que ler em tom de mea culpa, o romance A Carteira do Meu Tio, de autoria de Joaquim Manoel de Macedo. Sim, ele mesmo, o autor de A Moreninha. Acontece que o livro que foi publicado pela primeira vez em 1855 teve sua reedição em 2001 pela Editora Record, como parte da coleção Descobrindo os Clássicos.

Obviamente que não é dos melhores escritos de nossa galeria literária e nem foi o romance de Macedo que obteve mais êxito, porque nele o autor continua preso aos seus princípios moralistas e até preconceituosos. Como é sabido, Macedo foi deputado pelo Partido Liberal (ala conservadora), escreveu dezessete romances, entre melodramáticos, cômicos e históricos. Além disso, de acordo com Alfredo Bosi, na História Concisa da Literatura Brasileira: “Macedo era sub-romancista pela pobreza da fantasia e sub-romântico pela míngua de sentimento (145)”. Contudo, o romance não deixa de ser um retrato do Brasil, ou mais especificamente, do político brasileiro do século XIX.

O personagem protagonista não tem um nome em particular, pois é simplesmente o “sobrinho de meu tio”. Essa é a história de um certo tio que dá ao sobrinho certo diário ou, como quis o narrador, uma carteira para anotações resultantes de sua aventura pelo interior. Essa proposta se confunde muito com a narrativa de viagem, em que o personagem se desloca de seu espaço inicial montado em um legítimo pangaré e passa a descrever o que encontra pela frente. O objetivo é conhecer melhor os problemas do país onde vive. Essa idéia lembra, nos primeiros momentos, D. Quixote e seu destemido cavalo Rocinante. O autor dá ao texto um tom irônico, mas não consegue mantê-lo até o final do romance. No entanto, além de retratar o político do Brasil monarquista, o romance pode ser considerado um espelho que reflete as peripécias e fanfarronices dos políticos oportunistas atuais, além de levantar problemas que, acreditem ou não, ainda persistem em nosso país.

É quase inacreditável que ao narrar a sua breve aventura o personagem abordou assuntos tão atuais. Aí reside a curiosidade do romance. Ele está repleto de pérolas raras no bom sentido mesmo, tais como: […] Dizem que é estúpido: elegem-no Deputado, ou votam nele para Senador. E fica sábio!… Tem fama de gatuno: nomeiam-no tesoureiro. E fica honrado. […] Na viagem da vida os desvios são sempre mais proveitosos do que a estrada real. […] E não me venham cá em oposição ao que eu digo e sustento, com longos discursos fosfóricos e maçantes brilhaturas de eloqüência e de poesia, porque em tal causo eu me levanto armado com a história do passado, que é pouco mais ou menos a mesma do presente, como será a mesma do futuro (56).

E assim ele prossegue. A fala da personagem é um desafio e uma provocação ao homem público: […] a alma das maiorias parlamentares está encerrada dentro das pastas dos ministros (105). […] o governo não pode despender os dinheiros do estado, senão conforme as disposições do orçamento da despesa e, entretanto, alimenta as lâmpadas da imprensa ministerial com o azeite dos cofres do tesouro…(144).

Assim, A Carteira do Meu Tio pode ser uma saborosa leitura em termos de avaliação de nosso potencial enquanto eleitores ou enquanto interessados em exercer qualquer cargo político. Remetendo, portanto, o leitor ao universo de artimanhas e espertezas daqueles políticos mal-intencionados. Confesso que, apesar de o romance não ser bem estruturado sob o ponto de vista estético, é surpreendente seu desempenho em termos de recorrência temática. E nesta época em que todos ficam bonzinhos de repente, é recomendável acompanhar o passeio do “sobrinho de meu tio”.

Obra

– A Carteira de Meu Tio

Autor

– Joaquim Manoel de Macedo

Editora

: Record

Coleção

: Descobrindo os Clássicos

Maria Helena de Moura Arias

é jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual de Londrina.