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Alessandra Negrini e Fábio Assunção: mocinhos chatos abrem espaço aos vilãos.

Gilberto Braga sempre abusou do glamour e de situações absolutamente ficcionais em suas tramas. Mas, em Paraíso tropical, o autor pesou na mão e transformou Copacabana numa ilha da fantasia. Todas as garotas de programa são lindíssimas e andam em carros importados. A praia é um desfile de corpos sarados e gente bonita, enquanto cafetinas são presas em seus apartamentos. Pode até parecer crível para quem nunca colocou os pés na destronada Princesinha do Mar. Mas quem conhece a faceta caótica, vil e ?underground? de Copacabana, sabe que tudo não passou de mais uma demão de tinta cor-de-rosa no mundo irreal de Gilberto Braga. Isso sem falar de um bordel numa pacata cidade do litoral baiano, enfeitado com uma dúzia de lindas meninas com sotaque da zona sul carioca. É abusar da imaginação. Ou pior: mostrar que falhas grotescas passam cada vez mais despercebidas pela equipe de direção. Na verdade, esse bairro do ?mundo da fantasia? explicita o óbvio apelo da trama para agradar os compradores de novelas no exterior.

Mas a pior aposta do diretor Dennis Carvalho foi gravar cenas com imagens sobrepostas através do efeito ?chroma key? do bairro de Copacabana e de tempestades no mar. O resultado lembra os ?defeitos especiais? usados na década de 70. Não apenas são absolutamente ultrapassados, como dão a impressão de que são utilizados para destacar quando o autor quer mostrar uma cena que remete ao passado ou a um sonho do personagem.

Apesar de alguns tiros no pé, a direção conta com alguns acertos, como as câmaras ágeis em cenas externas e o bom ritmo. Mas isto não basta. A audiência do primeiro capítulo, que apontou parcos 41 pontos de média com apenas 59% de participação, deve ter sinalizado ao autor que algo não está bem. Afinal, sua antecessora, Páginas da vida, estreou com 47 pontos de média e 67% de participação, também superando a última novela de Gilberto, Celebridade, que teve média de 46 pontos.

No mesmo comparativo entre as duas tramas do autor, Gilberto destila todo o seu veneno de combate à hipocrisia, quando fala da falsa devoção de carolas que contestam a nova campanha do fictício Hotel Duvivier, com fotos de belas modelos de biquínis comportados. Enquanto essas carolas se revoltam com fotos recatadas, em Celebridade, o autor foi mais ousado. Logo nos primeiros capítulos exibiu um ?topless? de Darlene, de Deborah Secco.

A princípio, quem realmente ousa nessa novela é Wagner Moura. O ator mostra uma composição correta do cínico vilão Olavo, que logo de cara mostrou que sua parceria com a hilariante e diabólica Marion, sua mãe vivida por Vera Holtz, promete ser um dos pontos altos da trama. E, como a novela realmente pertence às feras, a ?cachorra? Bebel, de Camila Pitanga, logo disse a que veio. A atriz surpreende com a forma física que conquistou para a personagem e o perturbador rebolado da ?vagaba?, que promete roubar as cenas.

Em compensação, os mocinhos abusam da chatice. Fábio Assunção como o correto e ?mané? Daniel chega a causar náuseas com seu bom-mocismo. Por incrível que pareça, continua a atrair a atenção de grande parte das personagens femininas, divididas entre moças salientes e falsas puritanas.

Já Alessandra Negrini, que vive a antagonista Taís e a mocinha Paula, também tem apresentado uma atuação bastante opaca diante de seu potencial como atriz. À primeira vista, o que por enquanto vale assistir na trama de Gilberto é a bela abertura, que mostra paisagens de Copacabana, embaladas pela voz grave e melodiosa de Maria Bethânia entoando a canção Copacabana, de Dorival Caymmi.