Há dois anos, desde que foi convidado por Nena Inoue para dirigir uma leitura do texto Metaformose – Uma viagem pelo imaginário grego, de Paulo Leminski, o diretor Edson Bueno vem atravessando os dias movido pela vontade em levar a obra aos palcos.

O que o atraiu foi a idéia dinâmica de mutação e a aproximação com a experiência individual de cada um que Leminski procura recortar em sua fabulação dos mitos gregos.

Transportado para o palco, a montagem recebeu o título Metaformose Leminski: reflexões de um herói que não quer virar pedra, acrescentando mais um capítulo a uma trajetória onde os grandes escritores, mais do que venerados em suas formas originais, ganham novas leituras. A estréia é nesta quarta-feira, no Guairinha.

Durante os ensaios, sentimentos e experiências dos atores foram colocados em contato com a literatura de Leminski e com os mitos representados na montagem: Édipo, Medusa, Eco, Narciso e Afrodite.

Fugindo da lógica linear, a peça busca uma comunicação que transcenda o imediatismo do consciente para se inscrever nas camadas da imaginação. “A coisa que o Leminski mais valorizava é o que a mitologia nos dá como possibilidade de imaginação. A finalidade da mitologia é essa, a de abrir a imaginação”, conta Edson Bueno.

Ele acredita que a proximidade com questões individuais inerentes a todos estabelece uma conexão proveitosa. “É uma reflexão sobre o impacto que a mitologia tem dentro na gente. Mesmo que a pessoa não conheça nada sobre o assunto, ela é movida por Édipo, Medusa, Miniaturo”.

Processo criativo

A própria essência heterogênea do texto, revela o diretor, abriu caminhos para o processo mais colaborativo que ele já experimentou até então. “Seria pouco leminskiano eu montar o texto como estava na minha cabeça. Tinha que abrir a porta da percepção do elenco, pra que eles também se poetizassem, se manifestassem, abrissem o coração”, diz o diretor.

Como toda a experiência nova, o processo onde todos participam da criação foi incorporado com maior ênfase pelos integrantes do Grupo Delírio neste trabalho. “Teve muito erro, teve muita batida de cara na porta, a gente foi e voltou muitas vezes. Muitas coisas propusemos e depois desistimos. O espetáculo sempre vai se transformando”.

Resultante de um exercício de liberdade cênica, o trabalho foi concebido mantendo o foco na palavra. Na peça, a obra do poeta se configura em uma representação contemporânea sobre a mitologia.

“O que eu acho que tem de mais belo no Leminski é a sua literatura, a forma como ele escrevia, como ele trabalhava com as palavras. Elas não são só significados, são sons, sonoridade. A alma desse espetáculo é a palavra”, salienta o encenador.

Nos últimos anos, o Grupo Delírio tem focado a seu trabalho tomando como base a palavra de grandes escritores como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe e Franz Kafka.

Há cinco anos, em Capitu -Memória editada – uma adaptação da obra Dom Casmurro de Machado de Assis – o diretor reconta a história machadiana através da ótica de Capitu, a personagem feminina do romance.

O escritor norte-americano Edgar Allan Poe foi representado no palco na montagem de Projeto poe: o corvo, em 2006. O poema O corvo e os contos O gato preto e A queda da casa de Usher serviram de base para a dramaturgia.

Em 2008, uma releitura do Oitavo poema do guardador de rebanhos, de Fernando Pessoa resultou na peça Evangelho de São Mateus, marcada pela quebra da quarta-parede. O espetáculo coloca a criatura humana em primeiro plano enquanto rituais milenares como o de fazer o pão, comer e beber o vinho são celebrados.

No ano p,assado, o grupo se encontrou com o universo do escritor Franz Kafka na montagem Kafka – Escrever é um sono mais profundo do que a morte. A peça faz alusões a obras como O processo para adentrar na infância sombria e atormentada do pequeno Franz Kafka.

Serviço

Metaformose Leminski: reflexões de um herói que não quer virar pedra. De 15 a 26 de setembro, no Auditório Salvador de Ferrante -Guairinha (Rua Quinze de Novembro, s/n.º, Centro). De quarta-feira à sábado às 20h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada).

A literatura