Rudi Lagemann, o Foguinho, pertence à geração de cineastas gaúchos que surgiu nos anos 80s, realizando filmes na bitola super-8. Ele subiu ao palco do Palácio dos Festivais, em Gramado (RS), no mês passado, para apresentar seu longa Anjos do Sol. Subiu, chamou a equipe, desceu e pisou com o pé direito na escada de acesso ao palco. O Palácio dos Festivais é um templo do cinema para Foguinho e muitos de sua geração, que sonharam pisar naquele território. Anjos do Sol foi calorosamente aplaudido pelo público.

O filme trata de um tema duro – a prostituição infantil. Conta a história de uma menina que, na cena inicial, é vendida pelo pai, iniciando a trajetória que a leva a se prostituir num garimpo, à beira da selva, a fugir e a encontrar outra selva na cidade grande.

Foguinho baseou-se em pesquisas e depoimentos que levantou ao longo dos anos, trabalhando com grupos de apoio a jovens prostitutas. ?Selecionei, entre os depoimentos, aqueles que me pareciam os mais representativos e eram muito próximos, embora relacionados a diferentes pontos do Brasil?, revela Foguinho.

O diretor tem um currículo e tanto. Colaborou com grandes nomes do cinema brasileiro, entre eles Ruy Guerra e Tizuka Yamasaki. Ligou-se à Videofilmes como documentarista e, como realizador de comerciais (fez mais de 300), foi eleito o diretor do ano pela Associação Brasileira de Propaganda. E nunca pensou no formato do documentário para tratar da prostituição infantil? ?Não, entre outras coisas porque não poderia dar rosto às meninas. Teria de desfocar o rosto delas e me parece que isso estimula a indiferença. É preciso que as pessoas olhem na cara para ver se tomamos vergonha e erradicamos o horror da prostituição infantil.?

Existe toda uma campanha (válida e necessária) contra o turismo sexual. Mas não são só os estrangeiros que vêm explorar essas meninas. Nas suas pesquisas, Foguinho conheceu meninas como aquela que, em Salvador, era chamada de ?50 centavos?, por ser esse o valor que cobrava dos clientes. É um universo muito sórdido e cruel e, desde o início, o diretor foi consumido por dúvidas éticas – o que mostrar, como mostrar, até onde mostrar. ?Não tenho um estilo e, para o meu primeiro longa, adotei o que me parecia mais adequado para o tema. Simples, direto e potencializando o que havia de mais dramático na história.?

A simplicidade, no caso, é produto de muita elaboração entre Foguinho e seu diretor de fotografia, Toca Moraes. Se ficou bom, ele não sabe, mas fez o filme que queria, como queria. ?Quem apoiou o fez de coração, sem cobrar nada. Gostaria de poder restituir o que as pessoas investiram no meu trabalho, mas sinceramente, querer ganhar dinheiro com um filme desses me parece que seria algo obsceno, que eu seria apenas mais um explorador dessas meninas.? (AE)