Surgiu o primeiro filme capaz de ganhar com toda dignidade o prêmio máximo deste que é o mais antigo festival de cinema do mundo – trata-se de Vera Drake, do britânico Mike Leigh. A personagem do título (magnificamente interpretada por Imelda Staunton, já candidata ao prêmio de atriz) é uma doce dona de casa inglesa, que mora na Londres do pós-guerra.

O ano é 1950 e a lembrança da guerra continua viva na vida dura de um país ainda em reconstrução. Vera é toda dedicação à família e aos amigos, mas esconde um ponto obscuro em sua vida, que terminará por causar-lhe problemas. O que mais chama a atenção na linguagem do filme é o seu absoluto despojamento. Num festival até agora dominado por atuações acima do tom e trilhas sonoras avassaladoras, é um refresco assistir a filme de tamanha parcimônia, quase silencioso, de fotografia econômica e que acredita piamente no texto e nos atores. Tudo isso para que a emoção, se vier, flua de modo natural, sem imposição. E que haja, também, um respiro de reflexão para o espectador.

No caso, uma reflexão de fundo moral sobre a questão do aborto. Leigh se recusa de maneira aberta a julgar a personagem. “Ela fazia o que achava direito, e procurava apenas ajudar as pessoas”, diz. Definindo Vera Drake como seu filme mais político, Mike Leigh destacou que, tanto na época retratada como agora, as mulheres de classe alta que desejam abortar podem fazê-lo em clínicas de luxo, mas as da classe operária são obrigadas a cair nas mãos das curiosas, com risco de vida. Ao fim da sessão para a imprensa, o filme foi demoradamente aplaudido.

Fora de competição, She Hate me, do jurado Spike Lee, agradou em cheio ao público. Irreverente, essa comédia crítica sobre inseminação de lésbicas pelo método antigo desafia o cânone do politicamente correto e mostra um diretor afiadíssimo e lúcido.

Latino-americanos

O festival deste ano, do qual o Brasil foi excluído, apresenta uma boa seleção do cinema latino-americano: três argentinos: Un mundo menos peor, de Alejandro Agresti, Familia Rodante, de Pablo Trapero, Parapalos, de Ana Poliak, e um colombiano, Perder es cuestion de metodo, de Sergio Cabrera.

Campanha eleitoral dos EUA no Festival

A campanha eleitoral americana chegou ao Festival de Veneza com a projeção de Embedded-Live, do ator e diretor Tom Robbins, um filme independente de baixo orçamento, versão filmada em video digital da peça Embedded apresentada em Los Angeles e Nova York e, agora, em Londres. O filme usa personagens fictícios para criticar a estratégia do presidente Bush de buscar a guerra por razões geopolíticas e econômicas. O título se refere à guerra do Iraque, quando jornalistas acompanhavam as tropas americanas e usava-se a expressão ‘embedded’, embutido ou incrustado, para se referir à situação, que impunha restrições nas transmissões ao vivo.

“Nos últimos nove meses houve uma reação à farsa que nos levou à guerra”, disse Robbins numa entrevista coletiva. Ele criticou o apoio da imprensa americana ao governo, afirmando que ela poderia ter evitado que os EUA fossem à guerra. “Há políticos do próprio partido de Bush que se sentem traídos e existe uma cobrança crescente da opinião pública sobre estes acontecimentos”, assegurou ele. Robbins chamou de ”hipócrita” a estratégia da campanha Bush de colocar em questão a atuação do candidato democrata John Kerry no Vietnã, onde ele foi condecorado por bravura.

Tom Hanks, que levou o filme The Terminal a Veneza, afirmou que estas serão as eleições mais importantes de sua vida. “Vai ser uma luta corporal com muitos golpes baixos e será muito, muito, muito importante. Na minha opinião, o governo atual não está sintonizado com os caminhos que a América devia estar tomando”, disse Hanks.