Araca – Arquiduquesa do Encantado (Folha Seca), que acaba de chegar às livrarias, podia ser um livro sobre a Aracy de Almeida cantora, que encantou Mário de Andrade, Noel Rosa e tantos outros. Podia ser sobre a Aracy dos amigos, boêmia, de papo bom, humor ácido e generosidade ímpar. E até mesmo sobre a Aracy ranzinza, com ar de decadente, estrela maior do júri do Programa Silvio Santos. Entre tantas opções, o livro abarca todas, sem a pretensão de esgotá-las em suas 90 páginas.

A definitiva História (com maiúsculas), o autor Hermínio Bello de Carvalho preferiu as pequenas histórias, os detalhes do cotidiano, as tiradas que sintetizam a personagem. Acaba sugerindo mais que afirmando, talvez por saber que Aracy, tal qual a Mangueira que ele mesmo exaltou em versos, “não é só isso que se vê, é um pouco mais que os olhos não conseguem perceber”. A escolha é acertada: o retrato sai nítido.

Amigo de Aracy, com quem conviveu por quase 30 anos, Hermínio a aproxima do leitor sem nenhum ranço de reverência, levando-o à intimidade do lar da cantora. Com descrição precisa, atenta à importância dos detalhes desimportantes, ele aponta as “janelas permanentemente abertas”, os quadros de pintores como Di Cavalcanti pelas paredes, antigüidades como “tapetes persas, lustres da Bohemia, biscuits raríssimos” espalhados pela casa e os “companheiros ciumentos e inseparáveis”: Feijão, um “poodle sem-vergonha” que “estava habituado às boates, onde era servido à mesa e comia batatas fritas e bife com cebolas”; “Gorda e Miudinha, duas pêlos-de-arame”; e Dona Micas e Amigas, de raça indefinida.

Hermínio continua: “Na vitrola, Bach, Armstrong, Ella Fitzgerald. E os tangos de Gardel, ‘divino, divino'”. Nesta rápida panorâmica, com refinamento e simplicidade confundindo suas fronteiras, o autor dá as chaves para se chegar ao entendimento da arte e da personalidade de Aracy.

No primeiro capítulo do livro, Hermínio segue contando histórias que viveu com Aracy e arrisca definições para a cantora, uma “espécie de precursora natural dos grandes transgressores” – na sua opinião, ela foi existencialista antes do existencialismo e hippie antes de Woodstock. O capítulo “Salmos, quase desfrutes” – a estrutura do livro é repleta de referências da bíblia, mania de Aracy – sintetiza a cantora em “causos”. Estão ali o humor da cantora, como quando perguntou a Sérgio Cabral, do lado de sua namorada: “tens copulado muito?”

O livro inclui ainda curiosidades como o poema “Pavana, se fosse possível, em tempo de samba, para Aracy de Almeida”, que Hermínio publicou antes de tornar-se amigo da cantora e que, de certa forma, acabou aproximando os dois. Destacam-se também as reproduções de rascunhos e matérias de jornal – uma delas sobre o hobby de Aracy de fazer enfeites natalinos – e de fotos dela. Hermínio dedica um capítulo à sexualidade de Aracy e por meio dela faz um interessante paralelo entre a personalidade da cantora e a de Mário de Andrade.