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Trabalho de interpretação com movimentos bruscos e também com delicadeza.

De que forma a violência está presente na memória do corpo? Essa questão colocada pela coreógrafa e bailarina Marila Velloso a um grupo de artistas/bailarinos é o ponto de partida para o espetáculo Violência violada, projeto contemplado com o Prêmio Funarte Petrobras de Fomento à Dança – que estréia hoje em Curitiba, na Casa Vermelha (Largo da Ordem).

Em cena uma coreografia impactante criada pelo grupo formado por Eduardo Giacomini, Gladis Tridapalli, Leonardo Taques, Marila Velloso e Rosemeri Rocha, que reúne movimentos elaborados a partir das questões pessoais de cada um, de acordo com o tema proposto. O resultado é um trabalho de criação-interpretação coletiva, com duração de 50 minutos, onde as agressões do cotidiano são reveladas ora em movimentos bruscos, ora com delicadeza.

Marila Velloso, que divide a direção com Olga Nenevê, revela que há algum tempo estava querendo levar essa discussão sobre a violência para a dança contemporânea. "Eu acredito que está tudo no corpo da gente, independente das agressões sofridas ou não na infância. E nesse espetáculo a gente fez um exercício de vida e de relações", resume.

A bailarina e coreógrafa Rosemeri Rocha concorda e diz que participar do espetáculo ajudou a entender um processo pessoal de autoviolência. "Eu fiz uma cirurgia em dezembro e não podia me mover. Isso me afetou em vários aspectos físicos e emocionais e outras questões pessoais. Durante o trabalho, me afastava das cenas e fui percebendo o quanto eu estava me violentando com isso. Com o grupo fui trabalhando os sentidos não só de estar me movimentando, mas estar escutando e percebendo as imagens que o trabalho ia trazendo para mim. Foi um processo bem intenso, que foi sendo construído agregado aos outros", comenta.

"Esta é a primeira vez que consegui me sentir criadora-intérprete, um termo que estou descobrindo como pesquisadora em dança. Aqui é um lugar que precisamos contribuir com a idéia de outras pessoas e essa liberdade trocada é muito legal", elogia a bailarina Gladis Tridapalli. Ela conta que no espetáculo todo mundo começou com questões particulares e no diálogo o grupo foi ampliando as sensações e visões de cada um. "O processo começa e termina com violência e o que acontece no percurso de criação, o que a gente acha antes de fazer, muda, desdobra e se mostra de outras maneiras."

Para o ator Eduardo Giacomini que, curiosamente, não vem da dança, o mais importante é que todos chegaram ao projeto com duas grandes possibilidades: trazer o conceito do que é a violência e aprofundar a pesquisa individual de cada um dentro do espetáculo. "Nesse trabalho fui vendo que não preciso de muita coisa a não ser estar no meu corpo para estar presente. E o quanto isso já é suficiente para construir, elaborar coisas. A minha presença se altera a partir do outro e isso me fez crescer muito como artista."

Essa sensação do artista de "alteração" a partir do outro, não coincidentemente, tem uma relação direta com a dança contemporânea. "Uma das questões que gosto muito e venho buscando é a alteração do estado e nesse espetáculo eu consigo isso a partir do meu físico e o do outro. Cada dia muda. Essa troca de significação é muito importante nessa construção do percurso", endossa Gladis.

Último a embarcar no projeto, o bailarino Leonardo Taques ficou impressionado como a discussão artística que estava sendo elaborada pelo grupo vinha ao encontro de suas questões existenciais. Taques tinha acabado de chegar de uma viagem à China e queria trabalhar a questão da violência numa relação de noção do espaço. "Isso procurei trazer no palco, quando fico muito tempo parado e tem a ver com o que eu vivi lá, quando você não tem condição de se mexer".

Outro ponto instigante do espetáculo é a parte musical. Por se tratar de um espetáculo de dança contemporânea sempre há uma expectativa muito grande com a trilha sonora. Para isso, o músico Demian Garcia procura fazer uma dramaturgia sonora. "Como em muitas cenas o corpo dos bailarinos produz os sons, a escolha foi por realizar um trabalho de arritmia musical, respeitando os silêncios e sem a necessidade de colocar música durante todo tempo", explica.

A diretora de Violência violada está feliz da vida com o resultado. "É muito legal estar na cena e ver esses homens e essas mulheres do tamanho que são e, ao mesmo tempo, direcionando a coreografia para onde a gente quer. Este é um trabalho que me fez aprender a dar limites para os espaços e, também, pode me proporcionar entrar no presídio, um lugar que queria trabalhar desde os 14 anos." De fato, além das apresentações na Casa Vermelha, o grupo já está na fase final de entendimentos para uma apresentação fechada para os detentos do Ahu.

Serviço: Violência violada, espetáculo de dança contemporânea. Concepção e direção Marila Velloso. Colaboração direção, texto e cenografia Olga Nenevê. Criadores-intérpretes Eduardo Giacomini, Gladis Tridapalli, Leonardo Taques, Marila Velloso e Rosemeri Rocha. Estréia hoje (1.º de março) na Casa Vermelha (Largo da Ordem). Apresentações de quarta a sábado, às 21h. Domingo às 19h. Ingressos R$ 10 (inteira) e R$ 5 (estudantes e maiores de 65 anos, com bônus). A temporada vai até dia 12 de março.