O relógio marcava 6h – às vezes, até 7h – quando Vitor Araújo, músico de 27 anos, se obrigava a deixar a mesa onde espalhava suas partituras e a caminhar em direção à cama para fechar os olhos exaustos, rodeados por olheiras escuras. “Nessa época, estava miserável”, relembra hoje o pernambucano. Acionava o aparelho celular para despertar às 10h, no máximo, porque uma hora depois ele já estaria de volta aos rascunhos e às composições de Levaguiã Terê, seu épico e delicado segundo disco da carreira precoce. Abaixo do celular, Araújo deixava um recado para si mesmo, quando acordasse: “Levante e vá trabalhar”.

Os dias longos demais e as noites de sono curtas ficaram para trás. Araújo, aquele que despontou ainda moço, há quase uma década, de tênis all star e um gosto por transportar Radiohead para o universo erudito ao piano, trabalha há dois anos em Levaguiã Terê, um projeto que foi tomando proporções enormes na mesma medida que as crises de ansiedade do rapaz se intensificaram. E talvez “intenso” seja a melhor forma de explicar o que significa o álbum, da sua feitura até a audição, financiado através do edital Natura Musical. Será possível observar o voo desse ser mitológico que dá nome ao álbum nesta sexta-feira, 25, no Auditório Ibirapuera, a partir das 21h.

No disco, a banda liderada pelo piano de Araújo e pelo produtor Bruno Giorgi é acompanhada por uma orquestra de 30 músicos. Ao vivo, o orgânico troca de lugar com o sintético, com a inserção de mais sintetizadores e samples ao lado das guitarras e do próprio piano.

Araújo veio morar em São Paulo pela segunda vez em 2013 com o intuito de estudar composição. De certa maneira, aparecia ali o embrião de Levaguiã Terê. Neste álbum, diferentemente do antecessor A/B, é o jovem quem assina grande parte das orquestrações (apenas uma das músicas, chamada Toque Nº 4: Caldí-Turvalena, tem a orquestração assinada por Mateus Alves, a quem Araújo também credita a revisão da escrita para orquestra). Foi esse trabalho extenuante de compor que levou o jovem músico a virar as madrugadas. “Nenhuma nota está solta ali. Se ela entra em uma música, ela precisa ser justificada nas outras”, explica.

O disco nasceu de uma vontade de Araújo em trabalhar com o candomblé sob o ponto de vista sinfônico, mas cresceu. “No meio do disco, percebi que não queria tratar de religião no álbum. Resolvi tratar dos mitos”, conta o músico. “A característica do mito é ser agregador.”

Portanto, a cultura africana, mitos, lendas e a sonoridade percussiva “foram apenas o pontapé inicial”, como ele diz. Agregou culturas, a brasileira, a europeia e a indígena para construir um disco que se ergueu em camadas cujas ideias deveriam se comunicar entre si o tempo todo. “Meu disco anterior, A/B, já havia sido dicotômico, não unificado”, explica Araújo. “Esse, eu queria que significasse união, não exclusão.”

Daí o título das canções do álbum. A primeira metade dele é iniciada com Toques, a segunda, com Cantos. “Os toques não funcionam sem os cantos e os cantos também não funcionam sem os toques.”

E a sincronia de Levaguiã Terê está inclusive na própria história de Vitor Araújo. Ele deixa seus próprios vestígios, dos estudos exaustivos à obra de Heitor Villa-Lobos e Tom Jobim, passando pelo popular de Chico Buarque, repertório de quem ele se apropriava para a banda Seu Chico, passando pelas influências do experimentalismo de Radiohead, Björk e Animal Colective, artistas conhecidos justamente por estenderem a compreensão entre o pop e o esquisito – Canto N.º 3: Vuto Flâmego é talvez o melhor exemplo de como as percussões pesadas podem se encaixar com a experiência sonora que beira o rock.

O disco estava previsto para ser lançado em setembro do ano passado, mas Araújo percebeu que seria incapaz de entregar o trabalho a tempo. Em agosto, o pai do jovem, Túlio Araújo, morreu vítima de um câncer de pulmão descoberto poucos meses antes. O músico enfrentava seus próprios demônios na tentativa de compor os temas para o disco e deixou São Paulo, cidade onde mora desde 2013, para voltar ao Recife, terra do seu pai, a interromper um processo que já era duro demais.

Araújo, ao final de 14 músicas (sendo que duas delas, a sexta e a sétima, funcionam como uma conexão entre a primeira e a segunda parte do álbum), encontra a si mesmo. Não se trata de um disco fácil – mas é na complexidade que reside a beleza das diferentes características de cada um. Audição por audição, Levaguiã Terê ganha corpo e se constrói sozinho. Há urgência nos batuques e um desespero inerente nos arranjos de cordas, como na vida do próprio artista durante a feitura do disco. É quase como uma viagem condensada à cabeça de Vitor Araújo ao longo do último ano.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.