O poeta Virgílio Costa recorre ao mito de Ulisses para falar sobre saudade, distância, exílio e morte no recém-lançado Volta a Ítaca. Das experiências reunidas durante os dez anos em que viveu em Nova York, além das peregrinações feitas por Atenas e outras cidades gregas, surgiram os 57 poemas reunidos no livro, publicado em parceria com as editoras Lacre e Boca da Noite. A obra revela uma sutil autobiografia do escritor, permeada por versos que falam também sobre NY, Grécia antiga e Brasil contemporâneo, trazendo gravuras da artista grega Artemis Alcalay.

A temática para o livro surgiu das conversas entre Costa e a amiga Artemis, na época em que os dois eram estudantes de pós-graduação na New York University, na década de 1980. “Conversávamos sobre as saudades da nossa terra, tínhamos uma curiosidade mútua entre os dois países, Brasil e Grécia, e em Nova York tínhamos essa sensação de não conseguir voltar, porque são tantos os encantos, os atrativos…”, diz Costa.

“Conversando sobre Homero, ficamos com aquela ideia de que a gente não voltaria, de que aquele era o nosso exílio.” No período em que morou nos Estados Unidos fazendo mestrado em pintura e doutorado em artes e humanidades, Costa frequentou as oficinas de poesia de renomados escritores, como Joseph Brodsky, Nobel de Literatura, Galway Kinnell, professor de criação poética na NYU e vencedor do Pulitzer de poesia, e Richard Harrison, professor de técnica de poesia, também na NYU, e crítico literário.

Alguns dos poemas reunidos foram escritos originalmente em inglês e depois traduzidos. Costa conta que a ideia do livro permaneceu mesmo depois de ele voltar ao Rio e Artemis à sua natal Atenas. O assunto voltava à tona entre os dois a cada cinco anos, até que, há cerca de dois anos, ele decidiu concretizar o projeto – concluído não sem uma boa dose de teimosia, característica que compartilha com o herói de Homero. “Ulisses é o mais humano de todos os heróis da Ilíada e da Odisseia. Primeiro, ele é teimoso, segundo, é ardiloso e terceiro, e o mais importante, ele é curioso. E por causa dessa curiosidade quase não volta para casa.”

Dentre os versos que permeiam as quase 130 páginas de poemas, ele destaca alguns que contam um pouco de sua história. É o caso de Ícaro, referência ao irmão assassinado aos 18 anos, ou Cantiga de Ninar para Meu Amigo, homenagem ao poeta e amigo Dante Milano, que morreu em 1991. O livro pode ser lido por dois caminhos: como uma narrativa linear ou em poemas avulsos.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.