Woody e sua trupe na Espanha.

Acabou o mistério. O mais novo filme de Woody Allen, Melinda, Melinda foi visto pela primeira vez durante a abertura do 52.º Festival de San Sebastián, que começou ontem na cidade basca. O longa, que teve detalhes de sua sinopse guardados a sete-chaves, é um verdadeiro jogo duplo entre drama e comédia. Tudo se desenrola em torno de um mesmo personagem: uma mulher neurótica (como de costume nos seus trabalhos). A história arrebatou o evento e recebeu aplausos e elogios entusiasmados.

Esta é a primeira vez que Allen vai a San Sebastián para apresentar, fora de concurso, seu trabalho, algo que, habitualmente, ele reserva ao Festival de Veneza. Em entrevista coletiva para a imprensa, o diretor americano falou de política também. Perguntado sobre a possível reeleição de George W. Bush, Woody Allen disse que isso “seria uma tragédia automática”. “Se observar bem, Bush é bastante divertido e, se parar para escutá-lo e segui-lo, ele vai te provocar gargalhadas. É o exemplo perfeito de um ser com momentos cômicos mas com fundo trágico”, disse o diretor e ator em um dos momentos mais concorridos do festival, com centenas de admiradores ansiosos para tirar uma foto e pedir um autógrafo.

Em San Sebastián, o diretor passou a maior parte do tempo de cabeça baixa e divertindo os fãs que testemunharam sua veia cômica ao vivo. Como no momento em que perguntaram se tocar clarineta facilita seduzir as mulheres, como ele mostra no filme por meio de um pianista. O diretor agradeceu à organização do festival ao abrir a edição com a estréia mundial de Melinda, Melinda e poder agradar o público espanhol, que sempre apoiou seus filmes. “É uma tentação irresistível para mim e minha família pensar em passar uns dias em San Sebastián”, disse ele. “Em Londres, pude fazer meu trabalho sem nenhuma ajuda criativa de homens de preto que querem se meter no meu aspecto criativo”, acrescentou Allen.

Fazer o melhor filme do ano não é, para Woody Allen, sinal de ser um bom cineasta. “Tenho muitas boas idéias para filmes, escritas em guardanapos e em todo o tipo de papel, e quero fazer todas antes de morrer. Quando acabo um filme, me sento em casa e, depois de uma par de dias, por impulso começo a escrever outra história. Se não, o que se vai fazer sentado em casa?”

Ontem, Woody Allen ganhou das mãos do cineasta espanhol Pedro Almodóvar o Prêmio Donostia. “Deveria ser eu a entregar o prêmio a ele. Almodóvar é um diretor maravilhoso. Quanto ao prêmio, eu aceitarei, me calarei e agradecerei aos céus pelos doces espanhóis”, concluiu Allen.

Participantes brasileiros

A 52ª edição do Festival San Sebastián, que acontece até o dia 25 de setembro, vai reunir 19 filmes de 14 nacionalidades. Entre eles, quatro brasileiros presentes em seções diferentes, fora da oficial: O Outro Lado da Rua (com Fernanda Montenegro), de Marcos Bernstein, concorre na Seleção Horizontes a um prêmio de R$ 18 mil; o pernambucano Marcelo Gomes, que foi co-roteirista de Madame Satã, levará seu primeiro longa Cinema, Aspirinas e urubus, à seção Cinema em Construção; na mesma mostra Ruy Guerra compete com O veneno da Madrugada (uma co-produção Brasil-Argentina-Portugal); e Diários de Motocicleta, de Walter Salles, participa da seção Zabaltegi Perólas de Outros Festivais.

A mostra Cinema em Construção premia filmes latinos e espanhóis independentes em fase de pós-produção. É nesta seção que Ruy Guerra concorre. O diretor também participa do festival como jurado da mostra Horizontes.