A foto da capa do primeiro álbum de Luli & Lucinha, lançado em 1979, mostra de longe a silhueta das duas, como se formassem um só corpo semelhante a uma figura extraterrena. A imagem exemplifica bem o que a dupla formada sete anos antes representaria na MPB: algo à margem e em certa medida oculto, cuja obra só apareceu com frequência e repercussão em discos de Ney Matogrosso. E, ao assumirem um relacionamento amoroso e criativo a três com o fotógrafo Luiz Fernando Borges da Fonseca, reforçaram uma criação irmanada que nem o fim da dupla, em meados dos anos 1990, interrompeu.

Uma vida e carreira fora do padrão para um documentário não-linear. Assim é Yorimatã, do estreante Rafael Saar, que enfoca às hoje Luhli e Lucina, com exibição nesta terça-feira, 21, e quarta, 22, na Mostra. A ideia do filme surgiu quando o diretor fazia a pesquisa e assistência de direção de Olho Nu, documentário de Joel Pizzini sobre Ney, e percebeu que ele as gravava com regularidade. Ao ver antigas filmagens em super-8 feitas por Luiz, descobriu que havia uma história a ser contada.

“Lucina havia guardado esses rolos, filmados na comunidade hippie de Filgueiras, onde eles moraram durante anos. São imagens lindas, que mostram bem a rotina delas”, conta Saar, que filmou encontros de Luhli e Lucina com Gilberto Gil, Joyce Moreno e Ney, nos quais falam de temas presentes no trabalho da dupla, que gravou apenas cinco álbuns, independentes. A relação com a natureza e a umbanda também ocupam boa parte de Yorimatã. O nome do documentário vem da “palavra talismã, que nem abracadabra” da dupla, de origem indígena.

Há também imagens de shows que estavam em televisões e acervos particulares. Saar conseguiu momentos importantes da carreira da dupla, entre eles uma entrevista feita pouco antes do lançamento do primeiro álbum. As duas revelam ter sido procuradas por uma grande gravadora para fazer um trabalho destinado ao público infantil e preferiram não entrar “nessa jogada”.

A abordagem do relacionamento a três foi ponto muito discutido entre elas e Saar. A solução foi tratá-lo de forma natural, sem brecha para polêmicas. “O fato de termos uma vida em comum não é abordado de maneira vulgar. E no filme ela aparece de maneira correta porque privilegia a nossa obra”. Opinião compartilhada por Luhli, que vê em Yorimatã a chance de interpretes redescobrirem suas músicas. “Estamos velhas, mas tenho certeza que nossa obra é eterna.”