d21.jpgDesde o antológico disco com Fagner (2003), Zeca Baleiro vinha tocando uma série de projetos paralelos, dois dos quais virão à luz em setembro: um álbum de poemas de Hilda Hilst (1930-2004) que ele musicou e outro inédito de Sérgio Sampaio (1947-1994). Nesse meio tempo, vinha planejando um novo álbum-solo. Sem disponibilidade para produzi-lo, deixou a função para o engenheiro de som Walter Costa e o baixista Dunga, com quem já trabalhava.

São Paulo (AE) – Foram eles que deram forma às canções de Baladas do Asfalto & Outros Blues (MZA), daí o disco soar tão diferente de outros seus. Principalmente em relação ao turbulento Pet Shop Mundo Cão (2002), em que combinava eletrônica, violão e diversas abordagens rítmicas.

?Neste, queria algo mais focado, mais contido. Walter e Dunga deram às canções um tratamento meio ?radio friendly?, de balada-rock de FM que eu jamais conseguiria fazer, por incompetência mesmo?, diz o compositor. ?É um tipo de linguagem de canção simples, descomplicada que eu prezo e ouço muito ainda hoje. Como ouvinte, gosto de discos que tenham uma linha uniforme, embora não monótona, do começo ao fim. Sempre tive vontade de fazer um assim. Quando gravo um disco, não tenho paciência para ouvir muito, porque começo a achar tudo disparatado.?

Feito de modo ?meio hippie?, Baladas é seu trabalho mais coeso, todo impregnado de sonoridade rock/blues. Não tem sortimento de gêneros, trocadilhos espertos, romantismo piegas. Nem releituras (Muzak, lançada por Rita Ribeiro, não conta porque é dele) ou participação de muitos convidados.

?Ainda que com abordagens diferentes, isso vinha virando uma formulinha. Quis evitar isso?, diz Zeca. Há resíduos de suas antológicas dobradinhas com Fagner, tanto na estrutura de algumas canções como nas letras de Fausto Nilo, parceiro agregado daquele projeto.

Por causa das baladas e da condução sonora mais definida há também evidente ligação com Líricas (2000), em que Zeca deu a primeira virada estética significativa como trovador urbano. Walter Costa diz com propriedade que Baladas é o Líricas turbinado. Não é à toa que soa como um trabalho de banda. Foi quase todo gravado ao vivo em estúdio, ou seja, com os músicos tocando juntos, e sem muita pós-produção. Pet Shop tinha muita gente, muita máquina. A coisa é cíclica mesmo: você vai num extremo, depois seca tudo de novo.?

Ele não renega a eletrônica (?já usei e voltarei a usar?), que aparece minimamente em Baladas, mas está mais interessado em emoções do que em sensações. E essas emoções estão ligadas à alma, palavra que aparece em diversas letras de Baladas. ?Não foi intencional, mas acho meio emblemático falar disso, sem ser piegas, num momento em que as pessoas estão muito sem alma, vivendo muito sem verdade?, considera.

?Não precisa ser uma Janis Joplin a cantar rasgando o peito, mas falta entrega, comprometimento com a vida de alguma maneira, na música inclusive. Um sintoma disso é que a música popular se tornou hoje mais sensorial do que sentimental – está aí a eletrônica, que eu acho superválida, para provar. Mas não é à toa que as músicas de Roberto Carlos são tão sedutoras, com aquele despudor de falar das emoções. O último disco de eletrônica que fizeram já está datado, mas o primeiro de Bob Dylan continua atual.?