Ao turbinar os juros para segurar a inflação, o governo Lula preferiu não ousar na política econômica. Para começar, nossa inflação é de custos e não de demanda. Trocando em miúdos, juro alto é para controlar excesso de consumo. Quem dera o consumidor pudesse se dar ao luxo de comprar. Apertado pelo desemprego, alta dos preços, juros na estratosfera e incertezas no horizonte, o consumidor pisou no freio nas compras para a tristeza dos comerciantes e das indústrias. Em alguns setores, a ociosidade chega a 40%.

Pois bem, a inflação brasileira é provocada pelo famoso custo-Brasil, formado basicamente pela enorme carga tributária, uma das maiores do mundo, que encarece a produção de alimentos, bens e serviços, criando um círculo vicioso. Para se ter uma idéia da violência desse processo, no ano passado para cada 100 reais produzidos, 34 foram parar nos cofres do governo. O contribuinte pergunta: E o retorno disso está onde?

Simplesmente desaparece no cipoal de encargos que está nas costas do governo. Não bastasse isso, Lula decretou um orçamento espartano para este ano, prevendo uma economia de R$ 40 bilhões. O esforço é para melhorar a relação dívida pública/PIB, que anda seriamente abalada. Mas a capacidade de investimento em obras e serviços públicos cai a zero.

A grande promessa é para o ano que vem, muito embora o “espetáculo do crescimento” tenha sido anunciado já para esse ano. Só que tudo indica que não será assim. O vice-presidente José Alencar, um dos maiores defensores da queda dos juros, não entendia porque a equipe econômica estava tão reticente ao reduzir a taxa Selic, hoje em insuportáveis 24,5%, mesmo com sucessivas deflações.

Ou seja, a inflação caiu, o motivo alegado para praticar juros tão altos, e taxa Selic continuou lá em cima. Um dos motivos mais fortes está no temor do ressurgimento de uma espiral inflacionária em 2004. Isso porque o setor produtivo sacrificou parte significativa da margem de lucro para se manter vivo, acuado pela combinação de queda no consumo e juro alto. Se o juro cair, haverá um movimento de recompor essas margens, o que significa em linguagem clara reajuste linear de preços. Uma pressão tão forte assim vai realimentar a inflação e dá-lhe subir os juros de novo.

A reforma tributária, que está no Congresso, pode ajudar a desmontar este samba do crioulo doido, se conseguir promover um pouco de justiça fiscal, desonerando o setor produtivo da nação. Mas só isso não adianta. Precisa de um plano nacional de desenvolvimento, artigo em falta no Brasil desde a época de Juscelino Kubitschek.

O governo fala que pretende criar 10 milhões de empregos mas não diz como, qual setor vai atacar. Infelizmente essa não é uma falta daqueles que estão no poder, mas de quase todos os que se candidatam. Existe um déficit de idéias, para não fugir à linguagem econômica.

Os planos mais parecem surtos: uma hora falam em desenvolver a pesca esportiva, depois já muda para o turismo, logo em seguida é desenvolvimento de software, daí pula para agroindústria e daí para frente. Óbvio, temos que atacar todas as frentes, mas falta um direcionamento, um Norte, capaz de incentivar o desenvolvimento e acabar com esse negócio de ficar na torcida para ver o resultado das reuniões do Copom.

Miguel de Andrade  (economia@pron.com.br) é editor de Economia da Tribuna do Paraná