Encontrei entre revistas amontoadas num canto da banca de jornais, uma pequena publicação que convidava o leitor a desintoxicar-se. Era um tratado geral sobre a tarefa salutar de purificar o organismo, o ambiente doméstico, a mente, a vida.

De maneira sutil, mas incisiva, o livreto maldizia os radicais livres, o mofo, a ansiedade e a rotina. Propunha uma faxina geral e predizia um estado nirvânico de felicidade total, após o período depurativo. Aconselhava para tal paraíso uma série de procedimentos. A água que opera milagres, dentro e fora do corpo. O expurgo de preocupações que prolonga o bem-estar. O descarte de papéis velhos que cumpre o efeito de abrir a mente para o novo e o inesperado…

Um momento! Bateu forte no coração um sobressalto. Papéis velhos? Aqueles exemplares da revista Recreio, de 1968? As revistas Sesinho dos anos 50 tão cuidadosamente guardadas? Bisa Bia Bisa Bel, em primeira edição, autografada por Ana Maria Machado? Velhas histórias, poemas e cantigas armazenados em livros, revistas e recortes de periódicos? Tudo papel velho? Tudo a ser obrigatoriamente descartado para uma vida melhor?

Na mais total discordância, fechei o livrinho e mandei-o para o limbo da recusa horrorizada. Prefiro viver intoxicada a abrir mão da história que construiu meu presente.

Depurar, neste caso, não significa eliminar. Pode ser, pensando melhor, o equivalente a transformar. Sair modificado pela passagem do tempo. Ou ainda, trazer para o presente a lição do passado, para recuperar nela a essência humana permanente. Em literatura, o valor do passado transforma-se pelo poder da associação com o presente e, principalmente, pela intervenção da arte. É o que faz Ângela Lago, escritora e ilustradora.

Impregnada de raízes culturais, artísticas e visuais, encontradas em espaços e tempos dos mais diversos e distantes, da China à Alemanha, da atualidade à Idade Média, do Ocidente ao Oriente, do gênero narrativo à carta enigmática. Ângela Lago transforma essas fontes em textos de descoberta, de revivescência, de invenção, com a marca de dois procedimentos fundamentais: a intertextualidade e a alegria.

A autora confessa abertamente as fontes em que embebeu a ilustração e a narrativa, enlaçando os textos num bordado peculiar, convidando o leitor à re-visitar lugares de origem, transportando-o, pela força da imagem e da palavra, a novas paisagens e aventuras. O paradoxo dessa combinação, desse "novelho", é um ingrediente indispensável do prazer da arte, com sua base e apoio na alegria do leitor, de vez que a sátira e a paródia são recursos freqüentes na obra de Ângela Lago, produzindo um tipo de experiência em que o sujeito "deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos pois é a vida nascendo", segundo Clarice Lispector, em Aprendendo a viver. Alegria como forma de resgatar da morte e do esquecimento o que jazia no passado.

A obra de Ângela Lago, de refinadas raízes populares, é constituída por muitos textos que têm em comum o desafio ao leitor e o convite à interação. Em Outra vez (editora Miguilim), texto sem palavras, o olhar descobre e reconstitui o ambiente das cidades históricas mineiras e seu folclore, percebendo o tempo transcorrer em ações e movimentos de personagens humanas, animais e simbólicas, apresentados num traço instigantes, de cores e formas singulares, que atraem e prendem o leitor.

Em De morte! (editora RHJ), o leitor se depara com um conto que entrelaça o folclore pagão e o cristão numa relação lúdica entre anjos, santos, um velho e esperto lenhador, Jesus, o Diabo e a Morte, numa aparente narrativa exemplar. No entanto, subjaz à paródia o questionamento sobre o pecado, a morte, a necessidade de sobrevivência, mesmo a custo de expedientes transgressores da moralidade estabelecida.

Em Casa de pouca conversa (editora RHJ) e A novela da panela (editora Moderna) é retomado o ludismo das antigas cartas enigmáticas, em que as palavras do texto se revelam a partir de jogos e montagens com figuras e letras. Nessas histórias há a perfeita simbiose entre texto e ilustração. A colaboração imprescindível do leitor, ao transformar figuras em palavras, completa o texto e o sentido.

Tampinha (editora Moderna) é uma narrativa sobre a coragem, a vitória do mais fraco e a recompensa amorosa, que retoma a linhagem dos Pequenos Polegares dos contos tradicionais. Aliando magia, imaginário, soluções inteligentes, folclore brasileiro e a luta universal do homem contra as forças superiores da natureza, o texto brinca com metamorfoses e aventuras ao gosto da infância. Também da narrativa tradicional nasce Indo não sei aonde buscar não sei o quê (editora RHJ), em que as histórias de princesas, diabos e enigmas trançam-se numa única ação de final em aberto. Na esteira das narrativas populares, em que se misturam religião e superstição, foi publicada recentemente pela Companhia das Letrinhas, Muito capeta, uma narrativa sobre um diabo assustador humanizado em sua derrota para o homem, o qual revive a situação de alguém que ri por último porque foi o que chorou primeiro, e em que o desamparado ser humano dribla o mal e a morte por força de sua inteligência e esperteza.

A compreensão dessas narrativas, que fundem a dor e a alegria, o trágico e a esperteza, ganha amplitude quando a associamos às palavras de Clarice Lispector, ao descrever a experiência do prazer: "O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer (…) Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós."

Não é isso que esperamos da literatura: o prazer de nos reencontrarmos no escrito? A dor do viver temperada pela alegria do autoconhecimento?