O irresistível mar de lama parece engolfar com suas ondas carregadas de matéria putrefata as colunas que sustentam a cidadela da República, solapando-as pela ação de um instinto criminoso que transforma em pigmeus morais alguns quadros distinguidos com a missão superior de zelar pela incolumidade de princípios elementares do processo civilizatório.

Não bastasse a repercussão desgastante da Operação Navalha, com revelações ainda mais perversas que as patranhas descobertas pela Operação Furacão, na qual figuras gradas do Poder Judiciário se ombrearam na volúpia da trampolinagem a criminosos comuns, surge agora como a mais nova estrela dessa famigerada constelação – até prova em contrário – o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado Federal.

Uma revista de circulação nacional estampou no fim de semana a gravíssima revelação que uma grande empreiteira de obras estaria pagando, por intermédio de um lobista amigo do senador, a pensão alimentícia da filha de três anos que Renan tem com uma jornalista do Distrito Federal, além do aluguel do apartamento onde ambas residem. Segundo a publicação, um valor mensal de R$ 16,5 mil, retirado pessoalmente no escritório da empresa pela própria beneficiada.

Lance corriqueiro na vida de pessoas com relevância social e política, não fosse a dubiedade da afirmação de o pagamento ter sua suposta origem no caixa de empresa que mantém inúmeros contratos de serviços com a administração indireta do governo federal.

Renan negou a acusação feita pela Veja, dizendo que o dinheiro é seu e provém de ?ganhos agropecuários?. Lula ligou para o presidente do Senado a fim de mostrar solidariedade, mas, na emissão radiofônica das segundas-feiras, afirmou que o Ministério Público e a Polícia Federal estão obrigados pela Constituição a apurar todos os indícios, ?doa a quem doer?.

A declaração foi oportuna, tendo em vista a bateria de reclamações à ação policial, mormente após o gesto do ministro Gilmar Mendes, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, que invocou impropriedades jurídicas na condução do caso e autorizou a soltura de presos da Operação Navalha, embora as preventivas fossem ordenadas pela ministra-relatora Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça. Renan é a bola da vez…