Em vez de condecorados, os moradores da zona rural de Buíque, a cerca de 280 quilômetros de Recife, correm o risco de ser processados. No último sábado eles mataram a pauladas uma cobra-coral que promoveu um belo susto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando ele visitava a propriedade do compatrício José Cícero Filho – um sem-poço e sem-energia elétrica que planta feijão, milho e macaxeira, mas nunca sabe quanto colhe porque depende da chuva. Calma, companheiro, que a vida vai melhorar aos poucos, teria dito Lula, após passado o susto viperino.

Conta a crônica que o presidente, à vista da cobra (não se sabe se em posição de ataque ou não) chegou a recuar alguns passos. Naturalmente, estarrecido. Seus seguranças entraram em ação, tentando pisotear o réptil venenoso. Com mais treino, os moradores da região terminaram a tarefa, e exibiram a coral moribunda para as câmeras e comitiva aliviada.

Se até aqui era assunto de segurança, o problema, com a morte da cobra, passou a ser da alçada do meio ambiente. Matar cobras (e o Brasil descobre isso com alguma estupefação) é crime ambiental. No mesmo final de semana, moradores do Rio de Janeiro mataram um tubarão na praia de Grumari. Exegetas ambientalistas garantem que, embora o tubarão seja espécie em extinção, esse animal não está na lista de proteção e matá-lo, portanto, não constitui crime.

Mas voltemos à cobra de Buíque. A polêmica estabelecida tem toda a “fumaça do bom direito” para servir de lição num país que protege animais e mata de fome (e de outros males ou omissões) parcelas ponderáveis de sua população. Ninguém falou em processar, por exemplo, aquele hospital nordestino que em menos de 20 dias deixou morrer na fila 21 doentes à busca do negado socorro. E olha que todo o Brasil paga CPMF e outros impostos já faz tempo! Nem se fale aqui dos que tombam todos os dias na mira de um revólver, na ponta de uma faca, no zumbido de uma bala perdida.

A cobra, sim, por indefesa embora venenosa, merece proteção do Estado e não falta quem, investido da autoridade desse mesmo Estado, censure os que a mataram com um “não foi a atitude mais adequada”. Mas com a vida em risco – e assim foi desde os tempos das cavernas – o animal mais forte não acaba com o mais fraco ou descuidado? Faltava mesmo alguém da própria comitiva presidencial tomar a iniciativa de remeter o caso à apreciação da Justiça, para que algum juiz inspirado assumisse o ônus de decidir em favor da cobra… ou do matador da cobra. Afinal, é assim que dispõe a lei.

Para que não pareça prevenção contra víboras, lembremos o que dizia o fabulista Fedro, ao contar que um certo homem, condoído pela situação de uma cobra enregelada, levou-a ao peito para aquecê-la. Assim que se refez, o réptil matou o homem com uma só dentada. E explicou a outra cobra que lhe perguntava a causa do crime: “Para que ninguém aprenda a ser útil aos maus”.

Digamos que muita água correu depois que Fedro se foi. Mas é emblemático em nossos dias que uma (inocente) cobra, que teve por azar cruzar os passos presidenciais, suscite debate jurídico acerca de crimes ambientalistas. Afinal, muitas outras cobras morrem impunemente pelos grotões brasileiros todos os dias. Lula, que é dado a falar muitas vezes por parábolas, podia muito bem aproveitar o fato e falar de outras serpentes que permeiam a política nacional, infelicitando a vida dos cidadãos de bem, como costuma dizer.