A igreja apostólica, romana a partir do quinto século, quando começou a construir sua supremacia e catolicidade sobre os escombros do do Império Ocidental, chega ao alvorecer do terceiro milênio enfrentando alguns de seus dissabores mais ingentes, quais sejam, as pesadíssimas acusações contra inúmeros prelados pela prática da pedofilia. Essa realidade antes impensável, custará à Igreja alguns milhões de dólares, pagos em indenizações às famílias das vítimas desse crime abominável, além do desgaste jamais recuperado do que resta de sua autoridade milenar.

Não bastasse isso, outra bomba de efeito retardado explodiu nos contrafortes dos torreões da Santa Sé, na forma de um documento supostamente originário do Vaticano, datado de 1962, ameaçando com expulsão qualquer padre ou bispo que não ficasse em silêncio quanto aos rumores de escândalos sexuais na estrutura eclesiástica. A pena de excomunhão estendia-se também aos fiéis envolvidos pessoalmente nas questões.

Segundo a BBC, o documento foi obtido pelo advogado norte-americano, Daniel Shea, que defende vítimas de abuso sexual praticado por padres, para quem finalmente surgiu a prova de que a Igreja “mantinha uma conspiração internacional” para calar diante desse assunto altamente prejudicial. Até o momento em que esse artigo é escrito, a Igreja não se pronunciara oficialmente sobre a origem ou veracidade do documento.

Nenhuma surpresa, no entanto, para aqueles que porventura leram o livro Papal Sin, Structures of Deceity (Doubleday, 2000), escrito por Garry Wills, PhD em Yale e professor adjunto de História na Northwestern University (EUA), onde estão listados todos os “pecados” da Igreja através dos tempos, obviamente na perspectiva epistemológica do autor. Ao abordar o tema espinhoso da pedofilia e homossexualismo entre padres e freiras, Wills frisa que a exigência implacável do celibato acaba sendo, ao menos um dos canais que descambam nesse desvio comportamental.

Não foi sem outra motivação, suponho, que o historiador, ao explanar em minúcias vários casos de violência sexual praticada por padres contra adolescentes, em algumas situações, filhos das melhores famílias das respectivas paróquias, intitulou o capítulo de Conspiracy of Silence, tendo em vista todo o arsenal de negativas, dissimulações e, norma geral, a invocação pelos superiores da prerrogativa do silêncio ante a suspeição pendente sobre os subordinados. Wills tratou de outro assunto incômodo para a Igreja, o holocausto, também encoberto pelo véu do silêncio, dedicando-lhe toda a primeira parte da obra.

Wills faz referência ao livro já disponível em português, A Encíclica Escondida de Pio XI (Vozes, 1998), escrito em parceria pelo beneditino Georges Passelecq e o sociólogo Bernard Suchecky, cujo subtítulo é sobremaneira explicativo: “Uma oportunidade perdida pela Igreja diante do anti-semitismo”. No dia 22 de junho de 1938, o papa Pio XI teve um encontro reservado com o jesuíta norte-americano John LaFarge, editor da revista católica América, a quem encomendou o projeto de uma encíclica que receberia o título provisório “A Unidade do Gênero Humano”, então ameaçada pelo nazifascismo. Os auxiliares diretos de LaFarge na empreitada foram os também jesuítas Gustave Dusbuquois (francês) e Gustav Gundlach (alemão). A tarefa foi imediatamente iniciada e o resumo entregue na data combinada, para ser apresentado ao sumo pontífice. Todavia, nunca mais se soube do documento até 15 de dezembro de 1972, dia em que o National Catholic Reporter, um diário de Kansas City (EUA) publicou reportagem assinada por Jim Castelli revelando sua existência.

Pio XI morreu de fulminante ataque cardíaco na noite de 9 para 10 de fevereiro de 1939, sucedido pelo cardeal Eugênio Pacelli, até então secretário de Estado do Vaticano, que reinou sob o nome de Pio XII. De acordo com as regras pontificiais, o sucessor não é obrigado a dar seqüência aos projetos não executados pelo papa anterior. Esse fato talvez explique, em parte, porque a encíclica Humani Generi Unitas caiu num esquecimento fatídico para a Igreja, imediatamente posta em confronto com a ideologia racista de Hitler e Mussolini, cuja natureza odiosa merecia veemente repúdio. Na verdade, muitos homens importantes da Igreja não se davam conta desse dever.

A atitude do arcebispo de Viena, cardeal Theodor Innitzer, por ocasião da anexação da Áustria, em março de 1938, foi deveras sintomática. Depois de visitar Hitler, no dia 15, o cardeal expediu diretivas dizendo entre outras coisas que “a Igreja não irá lamentar sua fidelidade em relação ao grande Estado alemão”, assegurando que “a atividade do movimento nacional-socialista afastou o perigo do bolchevismo ateu, destruidor de tudo”. Esse documento foi lido em todas as igrejas austríacas no dia 27 de março, apelando aos católicos que se declarassem a favor do Reich, como “um dever nacional”. A assinatura do primaz foi precedida por um subserviente Und Heil Hitler!

Dias depois dessa capitulação o L’Osservatore Romano informou que o cardeal Innitzer falara por conta própria e, de fato, logo foi o mesmo convocado a Roma para uma retratação. Pressionado pela gravidade da situação é que Pio XI chamou LaFarge, que havia aportado sua colaboração em outras posições importantes da Igreja, para uma conversa privada em Castelgandolfo. Ao sair, o jesuíta levava consigo a tarefa de esboçar a nova encíclica. Os originais em inglês, francês e alemão foram entregues em setembro, mas seu destino permanece obscuro até hoje. Em carta a LaFarge em 18 de novembro, Gundlach enfatizou: “A evolução recente da situação na Alemanha faz com que a imagem da Igreja como garantia da ordem divina virá a sofrer com isso, se ela ficar calada”. Era uma profecia.

Mais tarde, expressaria a convicção de que Pio XII não tinha conhecimento do projeto em que LaFarge, Dusbuquois e ele tinham trabalho durante todo o verão de 1938, algo difícil de aceitar em se tratando de um ex-secretário de Estado, cujo dever de ofício é estar ciente de todos os assuntos da Igreja.

O idoso Pio XI morreu aos 81 anos, 17 dos quais exercendo o pontificado quando Alemanha e Itália já haviam proclamado o racismo como posição oficial de governo. Na promulgação de Mussolini, feita a 14 de julho de 1938, por exemplo, afirmava-se que “os judeus não fazem parte da raça italiana”. Numa audiência a peregrinos ocorrida em setembro, o alquebrado sucessor de Pedro, em corajosa atitude ponderou: “O anti-semitismo é inadmissível. Nós somos espiritualmente semitas”.

O cardeal Tisserant revelou que poucas horas depois da morte do papa foram vistos sobre sua mesa de trabalho, o projeto da encíclica sobre a unidade do gênero humano e o discurso que faria aos bispos italianos no dia seguinte, por ocasião do décimo aniversário do Tratado de Latrão. Segundo ele, mais tarde um dos homens-fortes do primado de Pacelli, os papéis teriam desaparecido quase imediatamente. Esse dado, sem a identificação da fonte, consta da reportagem publicada por Castelli em 1972.

A versão francesa da encíclica escondida de Pio XI, mesmo sendo apenas um resumo, depois de longa investigação veio às mãos de Passelecq e Suchechy, que a anexaram ao livro. Em sua evidente condenação do racismo, o texto diz que ele é tanto mais reprovável “por ser unicamente a luta contra o judeus”, reprovada mais de uma vez pela Santa Sé, “sobretudo quando desdobravam a capa do cristianismo para se abrigarem nele”. Definitivo, estabelece que “os métodos perseguidores do anti-semitismo não podem, de modo algum, se conciliar com o espírito autêntico da Igreja Católica”, que sempre “protegeu o povo judeu contra os ataques injustos de que tem sido vítima e, da mesma forma, reprova as invejas e lutas entre as nações; assim, e de uma forma particular, condena esse ódio a que, atualmente, se dá o nome de anti-semitismo”.

Infelizmente tal posição humanista, evangélica e insofismável da Igreja, que haveria de contribuir em grande escala para o encabrestamento da insanidade genocida de Adolf Hitler, foi abandonada em escuro desvão do Vaticano. O mundo civilizado e cristão testemunhou, nos primeiros anos da década de 40, o mais iníquo extermínio de seres humanos que a história registrou. Mais tenebroso foi o silêncio da Igreja, no presente posta de novo em xeque – quando a tragédia se repete – pelo mesmo tipo de solapamento moral que envileceu alguns cuja missão primordial era trabalhar pela salvação das almas.

Ivan Schmidt

é jornalista e escritor.