Lula surpreendeu em discurso que pronunciou em Uberaba. Surpreendeu porque, sendo um político histórico de esquerda, fez um “mea culpa”, ou melhor, “nostra culpa”, dizendo que é hora de assumirmos as responsabilidades pelos problemas do Brasil e pararmos de culpar os países ricos por nossas misérias. As esquerdas brasileiras e, de resto, de quase todo o mundo, culpam os países ricos por seus problemas econômicos e sociais. E o fazem porque entre os países ricos a maioria é de regimes capitalistas. A escusa busca fundamentar-se no que seria a prática do imperialismo pelas grandes nações, a começar pelos Estados Unidos, pelo colonialismo e pela própria natureza do capitalismo, que busca apenas o lucro, enquanto as correntes e países socialistas priorizam o social.

Indigitar os países ricos não é de todo errado, pois imperialismo e capitalismo não são ficções históricas, mas verdades comprovadas, que ainda persistem em certas partes do mundo. Mas a idéia de que os nossos problemas – os do Brasil – são culpa dos países ricos, esconde a nossa própria responsabilidade, num mundo globalizado, como ressaltou Lula em Minas Gerais. Temos sido incompetentes. Colonizados por portugueses, herdamos seu cartorialismo e as influências que fizeram de Portugal um dos países menos desenvolvidos da Europa. No mais, Portugal é um país tão pequeno em comparação com a sua então colônia e tão desprovido de recursos, que seria esperar demais que fosse capaz de promover o nosso desenvolvimento.

De outro lado, o Brasil é muito grande e potencialmente muito rico, o que lhe permite almejar posições de destaque, como prega o presidente da República. Temos território, terras agricultáveis e expressiva agricultura. Temos minérios em grande quantidade. Somos politicamente organizados, uma democracia consolidada. Temos um setor de serviços bastante sofisticado. E uma indústria que é, sem dúvida, a maior e a mais avançada da América Latina. Tecnologia a temos e a cada dia obtemos novas conquistas nesse campo. Poderíamos dizer que há um Brasil desenvolvido, convivendo com outro Brasil de constrangedora pobreza.

O mundo globalizado, como bem frisa Lula, busca lucros. É competitivo e pouco voltado à benemerência com os países menos desenvolvidos. Por isso, precisamos ser competitivos, repudiar as práticas comerciais de países ricos que nos prejudiquem e exigir condições de igualdade nas mesas de negociações. Precisamos impor-nos e impedir que nos imponham. Precisamos aprender a pensar grande.

Ao tempo que prega assim, pragmaticamente, a assunção pelos brasileiros de suas próprias dificuldades e os insta a assumir uma posição responsável, Lula anuncia sua segunda ida a uma reunião do G7, grupo dos sete países mais desenvolvidos do globo. Será na França, em junho. Lá, Lula vai propor um programa de Fome Zero mundial. FHC já trabalhara para programas que significassem o combate à pobreza, através de mudanças nos parâmetros que levam aos financiamentos dos organismos financeiros e assistenciais multinacionais. É por aí. Não há nenhum gringo tirando o pão da nossa boca e, se há, é das regras do jogo. No mundo globalizado temos de jogar de acordo com suas regras. Não dá para mandar parar o mundo para dele desembarcarmos.