Os parlamentares do PT devem votar de acordo com a decisão da maioria do partido. Disse-o o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com todas as letras e dizem-no as lideranças de primeira grandeza no governo. Mas o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, acrescenta: devem votar de acordo com a decisão da maioria, sim, desde que essa decisão não contrarie “princípios”. Quais, exatamente, não se sabe.

O deputado Babá (João Batista de Araújo) acha que a proposta de reforma da Previdência, muito parecida com aquela que o PT impediu fosse aprovada nos governos de FHC, vai contra seus princípios. “Sou contra esta reforma e vou manter minha coerência”, disse ele depois que recebeu cartão vermelho por sua conhecida rebeldia. Foi destituído da comissão especial que analisa a proposta de reforma que o companheiro Lula levou pessoalmente e em mãos ao Congresso dias atrás. Como ele, foi destituída também Luciana Genro, filha de outro ministro do companheiro Lula. Lindberg Faria igualmente foi enquadrado e, além disso, ficará 30 dias fora das funções de vice-líder da bancada petista na Câmara.

Os destituídos ? mais a senadora Heloísa Helena – receberam o apoio formal do ministro Rossetto no dia seguinte ao da destituição. “A senadora é uma liderança importante” ? ensinou o ministro, acrescentando que não apenas ela, mas “um conjunto importante de parlamentares e prefeitos do partido têm expressado preocupações que são legítimas, que na minha opinião vão no sentido de colaborar no aperfeiçoamento dos projetos de reforma”.

Se apóia radical, Rossetto é também um radical. Mas ele continua ministro à conta dos limites impostos pelo próprio companheiro Lula, segundo o qual falar pode; divergir, idem. O que não pode é votar contra. Acontece que nem Babá, nem Luciana ou Lindberg votaram ainda. Estavam dentro dos limites impostos, portanto. Entre falar e votar cabe um abismo.

O alto comando do PT, pelo visto, resolveu adotar a doutrina Bush, ou seja, o ataque preventivo: percebendo que não só argumentariam, mas tramariam e votariam contra, os três foram afastados. Ou enquadrados, para usar a linguagem da moda. O ato, segundo Rossetto, não deve levar ninguém a trabalhar com a hipótese de expulsão dos recalcitrantes do partido (provavelmente o passo seguinte), pois, conforme sua expectativa, “temos que fortalecer a democracia interna”.

O entendimento do ministro que, com sua posição, chama a si um problema que não era seu, pode levar mais alta a crise que se avizinha no horizonte do partido e, por conseguinte, do governo. Por uma questão lógica, a força e a influência de um cargo que é da confiança do Presidente não poderia ser usado para respaldar posições contrárias àquela da maioria do partido e do próprio chefe maior da Nação, cujos compromissos transcendem os da agremiação política a que pertence.

O jogo estabelecido está apenas no começo e é seguro imaginar que os problemas tendem a se agravar. A destituição dos radicais pode ser um caminho sem volta. No Senado, o conhecido senador Paulo Paim já abriu suas baterias, também por questões de princípios que cultiva há mais de 15 anos. “Se a proposta da Previdência ficar como está, eu não tenho condições de votar a favor”, anuncia ele, sabedor que este é um desafio sobre terreno marcado. Que fará Lula com esses companheiros, todos coerentes com um passado comum?