Puxada pelas exportações, a produção industrial brasileira vai bem, obrigado. Tão bem que fez sorrir o presidente Lula. De bem com a vida e com as pesquisas, ele ensaiou uma puxada para cima da auto-estima dos brasileiros, ultimamente carrancudos demais, segundo seu gosto. O crescimento, de acordo com as estatísticas divulgadas, foi, na média, de 7,2% no primeiro semestre deste ano, tendência que deverá continuar neste segundo tempo, reforçada pelo aumento dos investimentos, na profecia do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial – Iedi. Longe de São Paulo, cujo crescimento foi de 10,5%, o Paraná ficou com apenas 3,8%. Mas mesmo assim cresceu.

Destaque para a indústria automotiva. Esta, de janeiro a agosto, atingiu o melhor resultado desde o já distante 1997 -considerado o nosso melhor período em todos os tempos. Comparando agosto do ano passado com o último agosto, a produção foi 47% maior. Entretanto, o milagre muito pouco tem a ver com o mercado interno. Aqui, comprou-se menos 2,5% que em julho. Mesmo assim, a conta desde o começo do ano fecha em alta: 14,3% mais que em igual período do fatídico 2003. O grande destaque fica com as exportações. Veículos e máquinas agrícolas faturaram este ano 55% mais que em igual período do ano passado.

O governo, imediatamente, tratou de colocar uma lupa sobre os bons números setoriais. Em Brasília não há quem não tenha procurado fazer eco ao bom momento. O ministro do Planejamento, Guido Mantega, por exemplo, comemora observando que a economia cresce… com equilíbrio. “Uma economia crescendo com o setor de bens de capital à frente – ensina ele -, ampliando a margem de investimento, é o sonho de todo economista.” O presidente Lula desfilou um 7 de setembro com um largo sorriso ensaiado já na antevéspera. A política econômica do governo, finalmente, dá resultados. É para isso que todo o governo trabalhou desde o início. E vai trabalhar mais. Agora já captando recursos em euros, em vez de dólares.

Nos grotões da República há um ditado que marca toda festa de pobre com a sina do acidente desconhecido. Como a repetir o mau encanto, vem o ministro da Economia da vizinha Argentina, Roberto Lavagna, agourar nossa boa fase com um condicionamento insolente: “Queremos que a indústria automotiva se desenvolva no nosso querido Brasil… mas também queremos que se desenvolva na Argentina”. Querido, menos um pouco. O recado é claro: que o Brasil deixe de oferecer incentivos fiscais à instalação de indústrias estrangeiras. Continuando assim, a Argentina, que já embargou a importação de eletrodomésticos e outros produtos, embargará também a importação de automóveis. Posição que, segundo pensa o presidente vizinho Néstor Kirchner, será “totalmente compreendida” pelo colega brasileiro. Lavagna queixou-se – que se compreenda idem – também contra a Petrobras, mas isso são lá outros quinhentos.

Curioso é observar que, apesar das reclamações, também os argentinos cresceram. E não foi pouco, segundo se divulga: 49% em relação ao mesmo período do ano passado, embora ainda longe dos áureos tempos da paridade do dólar com a moeda austral. Enquanto nossa previsão é chegar no fim do ano atingindo a marca de 2,1 milhões de veículos fabricados, no vizinho país, com muita sorte, a indústria globalizada montará até o mesmo dezembro 300 mil veículos (o recorde é 450 mil).

No vinho, na cebola, no alho, na geladeira, na televisão ou, ainda, no suco, no trator ou no automóvel, a competição é a mesma. Daqui a pouco o clima azeda de vez, se, entre sócios do Mercosul e, além disso, vizinhos, continuar essa guerra, por enquanto verbal, que, como ainda ocorre entre os estados brasileiros, tem origem nos subsídios, incentivos e em anistias fiscais. Convém que os dirigentes dos dois países se sentem como gente grande e resolvam essas pendências antes que elas inviabilizem a conversação. Ou, mesmo, azedem demais a nossa pequena e incipiente festa.