Foto por: Fabrice Coffrini

O técnico Dunga optou por se isolar e blindar a seleção brasileira em nome de uma concentração absoluta para buscar o “hexa”, na África do Sul, e acabou criando mais um adversário: a imprensa.

Desde que assumiu a seleção, em julho de 2006, a relação entre Dunga e a imprensa tem sido tensa, pois o técnico não aceita as muitas críticas e se defende com seu histórico de resultados positivos, após ganhar a Copa América-2007 e a Copa das Confederações-2009, além de classificar o Brasil com facilidade nas eliminatórias sul-americanas.

O capitão do “tetra” na Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994, disse no início do mês “que aqui (na África do Sul) temos seguramente uns 300 jornalistas do Brasil esperando nossa derrota para dizer que tinham razão (nas críticas), que tive sorte na Copa América e na Copa das Confederações”.

Após alguns atritos e provocações, a gota d’água foram os treinos fechados à imprensa na África do Sul.

Neste domingo, dois dias antes da estreia do Brasil contra a Coreia do Norte, pelo Grupo G, Dunga fez um treino secreto em Johannesburgo, o que enfureceu os jornalistas brasileiros.

Luis Prósperi, do Jornal da Tarde de São Paulo, disse à AFP que “há quase 400 jornalistas acompanhando o Brasil na Copa e Dunga decidiu criar uma briga desnecessária ao fechar de última hora os treinos da seleção no sábado e no domingo”.

Para Prósperi “é difícil saber o que Dunga pensa, seus motivos, talvez queira preservar sua equipe, mas ele não entende que esta não é uma tradição do Brasil. Escolheu a imprensa como seu principal adversário, não a Coreia do Norte, Portugal ou a Costa do Marfim”.

“Desde suas primeiras entrevistas, antes da Copa, ele diz que os jornalistas estão contra a seleção. É absurdo. Isto está se disseminando pelos jogadores, que apontam a imprensa como a grande culpada, vilã e adversária do Brasil, quando nunca foi assim”.

Muitos jornalistas estimam que Dunga tem “rancor” por ter sido o principal culpado pela eliminação do Brasil na Copa de 1990; e destacam que ele não teve problemas com a imprensa a ganhar o Mundial de 1994.

Para Ari Ferreira, fotógrafo do jornal Lance, “Dunga deve ter problemas com a imprensa. Não sei se é com alguma pessoa ou com todo mundo, mas tem um problema”.

“É muito complicado trabalhar no esquema de treino fechado, não há como fazer imagens. E quando o treino é aberto também é difícil obter imagens… Se treinam as conclusões, fazem do lado oposto de onde estamos (…) Não é assim que vão ganhar os jogos”.

Eduardo Nicolau, fotógrafo de O Estado de São Paulo, disse que Dunga cria “grandes problemas, não podemos programar a cobertura, nos prejudica dia a dia. Isto não é positivo. Ele é o primeiro técnico a fechar totalmente os treinos do Brasil em uma Copa”.

“Isto nunca foi sinômimo de sucesso ou qualidade. É uma arma perigosa e se o Brasil não ganhar, as coisas vão se complicar”.

O repórter Silvio Barsetti destacou que é uma “medida inédita na seleção”. “Dunga dificulta o trabalho da imprensa e pensa que vai vencer assim. As cinco vezes em que o Brasil foi campeão do mundo sempre houve uma relação livre com a imprensa”.

Marcos Paulo Lima, do Correio Braziliense, afirma que a tática de Dunga “aumenta os riscos de especulação”.

“É um direito de Dunga esconder o jogo (…) mas esta de dizer que a imprensa está contra mostra que tem algum rancor”.

Eugenio Moreiro, do Estado de Minas, opinou que “a relação de Dunga com a imprensa sempre foi conflitiva, desde que assumiu não entende bem as críticas e provoca os jornalistas”.