Djalma Filho

Quando se inicia uma dieta alimentar depara-se com dois grandes temores: um, naturalmente, é o de que a dieta não dê resultado, e o outro, é o de que, justamente, ela dê resultado. Isso porque, uma vez passado o entusiasmo inicial, instaura-se a crise do acerto, que, por sua vez, gera a insegurança.

Com o tempo, cria-se um estranho e sinistro vínculo com a gordura em excesso, uma espécie de acordo, mais ou menos assim: ?Você (a gordura) assume a culpa por minha eterna frustração existencial e eu, em contrapartida, deixo-a sossegada e intocável?. Dessa forma, o espelho denuncia um grande motivo para sentir-se mal, a ponto de acreditar ser apenas a gordura o motivo do próprio descontentamento. É a objetividade possível dentro da subjetividade dos problemas e agonias do ser. A infelicidade real, mas falsamente identificada.

Come-se muito porque a comida nos dá uma satisfação do nosso instinto animal de sobrevivência, herdado geneticamente das gerações que tinham dificuldade para obter o alimento. Contudo, além da compensação física, existe a compensação emocional, como se o preenchimento estomacal compensasse o nosso vazio existencial. Comer é também um calmante, porém de curtíssima eficácia, já que rapidamente nos mete numa imensa crise de culpa e insatisfação. O cérebro, como se sabe, busca repetir as sensações prazerosas e de efeito tranqüilizante. Assim, o inconsciente tenta recriar aquela solução encontrada nos primeiros dias de vida, quando as aflições físicas e emocionais eram resolvidas igualmente pelo seio materno.

Então, come-se compulsivamente, já que isso não é mais possível.

Mesmo após uma dieta bem -sucedida, depara-se com uma nova paranóia: um corpo magro ?colado? numa cabeça de gordo. Pensa-se e age-se ainda como gordo. Não se acredita na própria magreza tão sonhada. Alguns chegam a sofrer de uma nostalgia da barriga e são tomados por um surto de ausência, ou coisa parecida. Tudo isso até notar o óbvio ululante: continua-se a ser quem sempre se foi, com os mesmos medos, inquietações e inseguranças. É inegável que se sentir mais bonito, leve e saudável é muito bom, mas a expectativa é sempre muito maior, daí a frustração. O ex-gordo deveria ser o homem mais feliz do mundo, já que pode oferecer o que a sociedade moderna mais cobra que é, justamente, um corpo magro. Percebe-se que, ao contrário da visão dos gordos (ou dos que assim se julgam), a magreza não é o passaporte para o paraíso.

O verdadeiro dilema é ver que de um lado está a luta para manter-se magro (apesar de não se ter encontrado a felicidade que se esperava) e, de outro, a tentação de se voltar aos velhos hábitos (na busca da eterna e falsa satisfação). E não é só isso, há o apelo vil da segurança dos quilos a mais. É a tentação de se ter novamente algo concreto para justificar as angústias. A real motivação para se acabar com a obesidade deve ser apenas a manutenção de uma boa saúde, e só. Essa, sim, é uma atitude realmente positiva, porque fortalece o indivíduo na sua árdua luta contra as ilusões. Na verdade, a ilusão faz com que, tanto a comida como a magreza, tenham os seus reais benefícios multiplicados ao extremo, fazendo esquecer que a comida é apenas o meio de se obter a sobrevivência e a magreza, a longevidade.

Djalma Filho é advogado, djalma-filho@brturbo.com.br