Quase já transformado no caçador de bandidos do colarinho branco, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, enche o peito e anuncia sua próxima meta: um programa contra a corrupção na compra de bens e equipamentos e contratação de serviços por parte do poder público. Pelo menos na União, em vez de investigar a corrupção depois que ela acontece, o objetivo é evitar, antes, que ela ocorra. Essa é a intenção.

Segundo o advogado criminalista que virou ministro, as estimativas das Nações Unidas dizem que entre dois e cinco por cento do PIB – Produto Interno Bruto brasileiro somem nos ralos da corrupção. Uma montanha de dinheiro formada por nossos impostos e contribuições que vai parar na mão de corruptos. Lideram tudo isso as comissões de concorrência do poder público, que têm se mostrado muito vulneráveis ao assédio dos amigos do dinheiro alheio. Lições dos vampiros da Saúde Pública e do já quase esquecido juiz Lalau, ex-presidente do Tribunal do Trabalho de São Paulo, entre outros.

A tática, que começará em casa (a etapa piloto do projeto deverá funcionar dentro de dez dias no próprio Ministério da Justiça) é relativamente simples. Pelo menos na aparência. Consiste em jogar mais “luzes” em cima das pessoas que são mais sujeitas à tentação – os integrantes das famosas comissões de licitação. O ministro Bastos ensina que é preciso estabelecer periodicidade, ou melhor, rotatividade no cargo (um dos mais cobiçados por cinzentos burocratas), além de uma sindicância patrimonial sistemática. E rigorosa.

O ministro anda animado com o tema, bem mais do que debater segurança pública, Conselho de Jornalismo ou reforma do Judiciário. Agradam-lhe os resultados obtidos pela Polícia Federal, sob seu comando, nas 38 missões recentemente executadas País afora (operações Anaconda, Trânsito Livre, Gafanhoto, Farol da Colina, Vampiro, Mamoré, Albatroz, Lince, Zumbi, entre outras), que renderam um saldo nada desprezível de 295 presos, entre bandidos do colarinho branco, empresários sonegadores, doleiros, policiais rodoviários, agentes e delegados da própria corporação em reestudo. Não se tem notícia de ação semelhante em toda a história do Brasil. Em temporada de caça, corruptos e corruptores colocaram as barbas de molho.

Mais importante que mudar leis ou endurecer as penas, segundo Bastos, é construir instituições à prova de quase tudo. A Polícia Federal será – ele confirma de pronto – o nosso FBI tupiniquim. Aliás, já é: “Você sente que a PF é uma instituição respeitada”, e será ainda mais com os reforços em andamento. “Agora vai”, admoesta ele. “Ou racha”, completa na outra ponta o diretor-geral Paulo Lacerda, para quem “onde tem crime organizado tem algum agente público envolvido”. Dentre esses agentes, tem de tudo – policiais, políticos e magistrados. É preciso ser duro com eles e por isso – garante – não tem amigos. Será?

Nenhum deles dentre os 137 políticos (até aqui ainda anônimos) que estariam relacionados pela força-tarefa que rastreia evasões fiscais, remessas ao exterior e fraudes através do finado Banestado? Nenhum também nos primeiros escalões, inutilmente bombardeados a ponto de o governo recorrer ao artifício da concessão do título de ministro para dificultar o processo, como ocorreu com o presidente do Banco Central? E onde ficaram as sérias dúvidas levantadas e publicadas contra o presidente do Banco do Brasil? E aquelas das fitas do Waldomiro Diniz?

Até prova em contrário, o otimismo de Bastos pode ser apenas uma cortina de fumaça. Ou, como prefere, nuvem. A alegoria é sua: para fazer chover, antes é preciso construir as nuvens. E as nuvens são essas instituições de que fala, que o Brasil não tem, infelizmente: “Não tem um sistema de segurança integrado. Não tem sistema prisional lógico. Não tem um Judiciário ágil”. Se tivesse, por certo substituiríamos o “agora vai” pelo “estamos indo”.