Quando vivíamos o ocaso do regime militar, Beth Carvalho fez sucesso com o samba Saco de Feijão. De letra simples, a canção tinha o seu ápice com o verso ?de que me vale um saco cheio de dinheiro / pra comprar um quilo de feijão?. A inflação, de hoje inacreditáveis 15% ao mês, corroia o salário mínimo e obrigava a população a fazer os famosos ?ranchos? para garantir comida para trinta dias.

Hoje, o dragão está controlado até segunda ordem. Mas alguns espasmos assustam. Nos últimos doze meses, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 5,04%, a maior marca na medição de doze meses desde março de 2006.

A inflação de abril ficou em 0,55%. Há um ano, o índice ficara em 0,25%.

Os principais vilões do aumento da inflação foram pão francês (subiu 7,33%), farinha de trigo (6,8%), pão doce (3,02%), macarrão (2,34%), pão de forma (1,12%), leite pasteurizado (3,56%), óleo de soja (3,18%), arroz (1,96%) e carne (1,35%). Os alimentos puxaram o índice para cima.

Juntar estes dados com as notícias das últimas semanas, que falavam da ?crise dos alimentos?, cria um panorama preocupante. Tudo parece estar bem administrado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas qualquer complicação externa como, por exemplo, um aumento do trigo argentino, vital para o País ou interno geadas severas na Região Sul -deixará a situação mais tensa. Esses problemas devem afastar o Brasil de sua meta de inflação, que é de 4,5%.

Mas certamente não fugiremos da margem de erro.

Mesmo assim, é um sinal de alerta. E a equipe econômica do governo federal não pode deixar passar batido tais avisos. A manutenção da política atual permitiu que os projetos sociais fossem tão bem-sucedidos. Sabe-se que estes são pontos-chave para a equipe de Lula, transferem renda e votos em progressão geométrica. Mas a iniciativa só foi garantida com a estabilidade macroeconômica. E também com o suor da população, que não quer gastar um saco de dinheiro para comprar um quilo de feijão.