O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, partiu para mais um ?round? na sua briga com o Senado brasileiro. A estas alturas, ele já demonstrou que não gosta do nosso Senado. Neste momento, nem nós. Aquela casa de leis tem sido palco de alguns desvios que chocam a sociedade. Mas proclamemos: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. As antipatias de Chávez resultam do fato de que o presidente que ditatorialmente dirige o país vizinho não aceita ser criticado por parlamentares de outro país. Aliás, nem mesmo do seu próprio país. E criticar é função dos parlamentos aqui e em qualquer parte do mundo onde se exerça, bem ou mal, a democracia. No nosso, há senadores que criticam o nosso próprio Senado ou ocupantes dos mais importantes cargos de sua direção.

Quando Hugo Chávez, segundo Lula praticando um ato que era seu direito, cassou a RCTV, emissora de televisão que lhe fazia oposição, parlamentares brasileiros o criticaram. Foi o que bastou para que o estouvado chefe do governo venezuelano chamasse os nossos senadores de ?papagaios? que repetem as palavras de ordem de Washington. No Legislativo brasileiro sempre foram feitas críticas aos Estados Unidos e seu governo. E nos dias de hoje não há nada que indique haver obediência a ordens de Tio Sam. Pelo contrário, a posição brasileira tem sido de independência, havendo por óbvio, já que somos uma democracia, quem goste e quem não goste dos EUA sob o governo Bush; que aceitem e aplaudam ou rejeitem e vaiem seu capitalismo, assim como se dividem as opiniões sobre Cuba de Fidel Castro e até mesmo sobre o Executivo brasileiro comandado por Luiz Ignácio Lula da Silva.

Ao criticar o autoritarismo chavista e sua investida contra a liberdade de imprensa, o Senado brasileiro expressou a opinião pública do nosso País. Senão toda, pelo menos uma expressiva parte dela. E isso é legítimo. Legítima poderia não ser uma ação direta do Executivo brasileiro contra o da Venezuela, pois nos é caro o princípio de não-intervenção nos assuntos internos de outros países. Desaprovar, entretanto, é um direito inalienável. O próprio governo da Venezuela tem desaprovado atos e políticas de governos de outras nações.

Agora, o atrabiliário Hugo Chávez resolveu dar um ultimato ao nosso Senado, dizendo que se ele não referendar o ingresso da Venezuela no Mercosul até setembro, seu país desistirá de integrar o bloco. O Paraguai também ainda não referendou o ingresso venezuelano. Ao mesmo tempo, o presidente da Venezuela qualificou de impertinentes as declarações do chanceler brasileiro Celso Amorim, que disse que a Venezuela deveria se desculpar com o Congresso brasileiro para que a aprovação do ingresso fosse agilizada. ?A Venezuela não tem nada por que se desculpar. É o Congresso do Brasil que deve se desculpar por se imiscuir nos assuntos internos da Venezuela?, atacou Hugo Chávez.

Esse ultimato e essa briga toda entre Chávez e instituições brasileiras tem, por detrás do palavrório, a evidente intenção do governo venezuelano de dominar ideológica, política e economicamente o Mercosul. Ou formar outro bloco que o substitua. Para isso já tem aliados, como os governantes do Peru e da Bolívia. A esquerdização do bloco está nos planos de Hugo Chávez. Faz parte do seu ?socialismo bolivariano?. Uma ditadura, senão militar, de um militar que evidentemente nunca leu Marx, mas que não titubeia em agir com arbítrio quando isso pode reforçar seu poder, que se escuda nas armas e num regime que emudeceu o Congresso do seu próprio país.

É de se desejar que, em nome da autodeterminação dos povos, Chávez fique fora do Mercosul. Ingressando nele, sua ditadura pode transformar-se numa doença perigosamente transmissível, que poderia encontrar campo para se disseminar em certas camadas da população dos demais países no Cone Sul.