Belo Horizonte (AE) – O empresário Marcos Valério Fernandes de Souza sugeriu que se as investigações forem aprofundadas, outros esquemas de financiamento de caixa 2 de campanhas eleitorais no País serão descobertos. "Há outros tipos de financiamentos", disse o empresário mineiro, em entrevista publicada hoje (14) pelo jornal "O Tempo", de Belo Horizonte. "Hoje, a SMPB e a DNA estão na berlinda, mas no passado podem ser descobertas grandes empreiteiras financiando ou grandes bancos financiando. Tem de deixar de hipocrisia", afirmou o empresário.

Valério, sem dar detalhes ou citar nomes, disse que se as "as pessoas tiverem coragem de admitir – o que eu acho que não vão ter – outros esquemas aparecerão". Para ele, "é só querer apurar que se descobrirá a participação de grandes empreiteiras e bancos."

As investigações em curso detectaram que o empresário operou o financiamento de caixa 2 para o PT e partidos da coligação liderada pelo PSDB na campanha à reeleição do então governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, em 1998.

Tiradentes – Protagonista da atual crise política, Valério reconhece que não é inocente, mas se considera traído e disse que está sendo vítima de uma pressão do governo federal na tentativa de "blindar" políticos do PT, como o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, e o ex-presidente da legenda, José Genoino.

"Deixa o empresário estourar porque o povo precisa de alguém para ser o boi de piranha. Alguém que não é do meio deles que não é petista de carteirinha", afirmou. "A população precisa de um Tiradentes para ser enforcado. É assim que estão agindo em relação a mim."

Valério, mais uma vez fez questão de poupar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "As pessoas que me traíram foram as mesmas que traíram o presidente. As que me abandonaram foram as que ocultaram tudo do presidente. Acho que Lula não sabia."

Recados – Ele voltou a rechaçar a comparação com Paulo César Farias, o ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello à Presidência. "O PC arrecadava dinheiro com os empresários e ficou calado diante das denúncias. Eu fiz empréstimos pelas minhas próprias empresas e não devo lealdade a ninguém.Estou falando tudo o que sei."

O empresário também reafirmou que "a história do Brasil" mostra que ele deve temer pela vida (PC foi assassinado). E revelou que já recebeu "recados" para ficar em silêncio. Os recados teriam sido dados por telefone, e-mail, além de bilhetes deixados no pára-brisas do carro e outros na casa que tem no bairro Castelo, região norte da capital mineira. Atualmente, Valério vive recluso com a família na residência no condomínio Retiro do Chalé, em Brumadinho, área metropolitana de Belo Horizonte.

Inquéritos – Na terça-feira (16) Valério deve depor sobre dois inquéritos na Polícia Federal, na capital mineira. Um deles refere-se ao empréstimo tomado pela DNA no Banco Rural, em 1998. A denúncia é que o empréstimo, com valor inicial de R$ 8 35 milhões, foi usado para financiar o caixa 2 da campanha à reeleição de Azeredo.

O outro inquérito refere-se à quitação supostamente fraudulenta de um empréstimo de R$ 1,854 milhão concedido em junho de 1996 pelo Banco de Crédito Real de Minas Gerais (Credireal), privatizado no ano seguinte.

Na denúncia, o Ministério Público Estadual acusa a SMPB e seus sócios de pagarem a dívida com uma fazenda superavaliada, que não valia mais do que R$ 330 mil. O depoimento do empresário estava marcado para a última sexta-feira, mas foi transferido porque o advogado Marcelo Leonardo alegou que seu cliente estava "sem condições físicas e psicológicas".