“Quero ser algo mais que uma rosa na lapela do meu marido”. O desabafo de Margaret Trudeau, a jovial esposa do canadense Pierre-Elliot Trudeau, primeiro-ministro do Canadá durante 15 anos (1968-1979/1980/1984), expressa o dilema vivido pelas mulheres dos mandatários: ajudar o marido, servir-lhe de assistente dedicada, sempre disposta a representar papéis secundários, cuidando dos espaços e aposentos oficiais, ou assumir posições mais proeminentes, liderando movimentos e programas de cunho social? Esta questão vem à tona no momento em que a primeira-dama, Marisa Letícia, ganha espaços da mídia com a interpretação de que teria autorizado a sugestão de um jardineiro para decorar os jardins do Palácio da Alvorada e da Granja do Torto com sálvias vermelhas, no formato da estrela do PT. A jovem Trudeau, no ardor de seus 27 anos, só conseguiu muito estardalhaço em seu papel de primeira-dama, sendo famosa sua passagem por Cuba, em 1976, quando lá desembarcou vestindo calças jeans e camiseta esportiva ostentando seu nome, tratando Fidel com grande intimidade, e depois, na Venezuela, quando, em solenidade oficial, tomou o microfone para cantar uma canção de sua autoria dedicada à esposa do presidente venezuelano.

Dona Marisa, diferentemente da canadense, mostra-se conformada com o papel de esposa-mãe-dona de casa e discreta acompanhante do marido, apesar de dispor de um gabinete oficial no Palácio do Planalto. Não teve certamente nenhuma intenção de fazer barulho com a estrela do PT fincada nos jardins palacianos nem mesmo imaginou desfigurar o projeto arquitetônico original. Ao que tudo parece, avaliou a sugestão do jardineiro com a maior naturalidade, como primeira-dama desejosa de tornar mais esplendorosos os jardins, motivação que também inspirou antecessoras como Lucy Geisel (1974-1979), Dulce Figueiredo (1979-1985) e até Ruth Cardoso (1995-2002), com a diferença de que estas não fizeram alterações substanciais nos canteiros. A naturalidade, porém, com que a estrela petista foi cultivada em espaço público está a revelar uma das mais escandalosas mazelas da cultura política: a imbricação entre as esferas pública e privada, cujo corolário é a perpetuidade do patrimonialismo, este eixo do Estado brasileiro durante o império escravagista e herança da tradição político-administrativa da sociedade luso-brasileira.

A estrela do PT em jardins públicos simboliza a mescla de marketing espalhafatoso e cultura patrimonialista, pela qual a posse da propriedade pública se confunde com o exercício do próprio poder. Trata-se, no fundo, da intersecção dos Poderes Público e Privado, com o uso (e abuso) do primeiro pelo segundo. Os mandatários, que devem o poder ao povo, acabam se “apropriando” dos mandatos, tornando-os instrumentos para a criação e expansão de feudos. Por conseqüência, assumem a posição de dono da esfera da coletividade, usando a representação de ordem coletiva para incorporar patrimônio público ao domínio particular.

É verdade que o processo de apropriação da res publica pelo agente privado não é exclusividade do PT, sendo esse um processo que se incrusta nas malhas dos três níveis da administração pública do País. Quanto menos desenvolvida a região, mais forte é o mando do agente público e menor a esfera da coletividade. Não por acaso a sociedade de desiguais aponta como um dos fatores a apropriação de bens públicos por mandatários inescrupulosos. Cada governo exibe desmandos. Mas, sob o governo do PT, a invasão do território público tem sido mais feroz. Basta ver a sede dos quadros petistas quando chegam ao poder nas prefeituras, governos estaduais e, agora, na administração federal. Multiplicam-se as contratações de assessores, os cargos em comissão e as funções gratificadas, com salários elevados. Na área federal, os 22 mil cargos são ocupados de maneira quase vertical. E a regra é praticamente a mesma dos antigos coronéis da política: “Aos amigos pão, aos inimigos, pau.”

Como, porém, explicar a idéia de que, sob a administração petista, o domínio do espaço público ocorre de maneira mais intensa? Hipóteses são aventadas, entre elas, a de que a demora para conquistar o poder ofuscou o equilíbrio dos corpos dirigentes, cuja avidez se tornou mais aguda. Ao alcançar as glórias do Planalto, quem sobreviveu na adversidade das planícies, não apenas quer tirar o atraso, mas se vingar de adversários tradicionais, grupos ou partidos. Outra explicação está na própria cultura de onisciência que o PT semeou. Nos últimos 20 anos, anunciou aos quatro ventos ser o único detentor da verdade e ícone da pureza ética, o que, por si só, bastaria para explicar gestos e atitudes. Assim, a ocupação descabida dos espaços públicos é parte do modo petista de operar a política. Trata-se de uma visão “revolucionária” a respeito das relações entre Estado e sociedade. Admite-se que, nos últimos tempos, esse escopo ficou mais frouxo, por conta do descrédito que corrói a imagem do Governo e do descrédito que imanta a administração federal.