Foto: Arquivo/Agência Brasil

 Meirelles, presidente do BC: prioridade é o combate à inflação com crescimento econômico.

Mesmo traçando um cenário positivo para o futuro da inflação e também para o crescimento econômico, a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) não trouxe pistas sobre se a diretoria do Banco Central (BC) pretende acelerar o ritmo de cortes na taxa de juros básica da economia, a Selic.

No documento divulgado hoje, a autoridade monetária explicou que a decisão de cortar a Selic (tomada pela maioria dos diretores) em 0,5 ponto percentual seria a mais "adequada" porque permitirá que os juros caiam por mais tempo, sem colocar em risco o controle da inflação.

"Para a maioria dos membros do Copom uma redução de 0,5 ponto percentual seria adequada, dado que corresponderia melhor à velocidade ótima de implementação desse processo de flexibilização e contribuiria para aumentar a magnitude do ajuste total a ser implementado".

Por outro lado, os dois diretores que votaram por uma redução mais forte na taxa básica, de 0,75 ponto percentual, tiveram suas razões explicadas em apenas uma frase. Eles defenderam que a redução maior seria uma "sinalização mais condizente" com a avaliação dos riscos que a retomada da atividade econômica poderiam trazer para a inflação. Ou seja, na visão deles o BC poderia estimular mais a economia sem colocar em perigo o controle dos preços.

Analistas ouvidos pelo Estado sentiram falta de mais detalhes sobre os votos dissidentes do Copom e concordam que a ata praticamente não dá sinais sobre o tamanho dos cortes, que devem continuar no futuro. Também destacam o fato de que o documento divulgado hoje, sobretudo no capítulo Implementação da Política Monetária, praticamente copiou o texto da ata de novembro, à exceção da frase sobre os votos pró corte de 0,75 ponto percentual.

Na difícil busca por indicações sobre os próximos passos do Copom, o economista-chefe do banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, consegue ver na expressão "velocidade ótima" a dica de que a partir da próxima reunião, nos dias 17 e 18 de janeiro, os cortes poderiam ser de 0,75 ponto percentual.

Mas isso não significaria mais ousadia do BC. Ele explicou que para manter o ritmo atual de redução na Selic, as quedas inevitavelmente terão de ser maiores, porque no ano que vem o Copom se reunirá apenas oito vezes, em vez de ter reuniões mensais. "Oito cortes de 0,75 ponto percentual são exatamente a mesma coisa do que 12 cortes de 0,5 ponto percentual", disse Leal.

"Se o BC cortar em 0,5 ponto o juro em janeiro significa que está reduzindo o ritmo dos cortes, já que haverá apenas oito reuniões. É uma lei da física", concordou a economista do banco ABN Amro, Zeina Latif.

Já o economista do Grupo de Acompanhamento Conjuntural da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carlos Thadeu Filho, não faz essa associação. Para ele, a insistência do Copom em dizer que busca preservar as conquistas obtidas no combate à inflação, é um sinal de que os diretores devem manter a cautela nas próximas reuniões.

"A maioria do Copom pensa que se os cortes forem acelerados e a inflação subir, essa conquista pode ir por água abaixo", afirmou o economista. Embora aposte numa redução de 0,5 ponto em janeiro ele vê espaço para os juros caírem um ponto percentual.

Para o economista-chefe do banco Pátria, Luiz Fernando Lopes, o que pode determinar cortes maiores na Selic é a atividade econômica, que para ele ainda é "um ponto de interrogação". Ele questiona a avaliação do Copom sobre a recuperação do crescimento.

"A atividade econômica está perdendo fôlego, mas eles dizem que haverá recuperação. Os indicadores estão sugerindo um crescimento fraco no quarto trimestre deste ano. É isso que vai definir os rumos do Copom. Se eles virem que o ritmo de crescimento levará a uma expansão menor do que 3,5% no ano que vem eles devem cortar a Selic com mais força, desde que a inflação também não ofereça surpresas".

Na ata, o BC destaca que a queda do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre será revertida e o País crescerá nos próximos trimestres, sustentado pela expansão do consumo das famílias e das exportações, a despeito da redução do investimento no terceiro trimestre.

"A atividade econômica deverá se recuperar nos próximos meses e continuar em expansão em ritmo condizente com as condições de oferta de modo a não resultar em pressões significativas sobre a inflação", sentencia a ata. "Mas esse diagnóstico é controverso", afirmou Luiz Fernando Lopes, do Pátria.

Luís Otávio Leal, do banco ABC, também questiona a avaliação do BC sobre o nível de atividade. "Em nenhum momento eles dão o braço a torcer sobre a surpresa negativa do PIB no terceiro trimestre. Eles poderiam ter dito isso, mas tergiversaram analisando o resultado pelo lado da demanda, o que foi uma forma de minimizar o resultado negativo."

Outro ponto importante da ata foi a previsão de que a inflação deve cair em dezembro, bem como a projeção de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará no ano que vem abaixo da meta de 4,5%. Mas o mercado discorda e projeta uma inflação acima do objetivo do governo para o ano que vem.