A BMW R 1200 GS Rallye poderia ser apenas mais uma edição especial da famosa bigtrail alemã. Não fosse o fato de que, além de ser a mais recente – chegou ao Brasil em setembro – , trata-se da última versão a utilizar o tradicional motor boxer com refrigeração a ar. A partir de 2013, uma nova R 1200 GS com refrigeração líquida, entre outras alterações, chegará ao mercado.

Como diferencial, a 1200 Rallye traz a cor branca na roupagem, motor na cor preta, os cilindros em grafite e grafismos alusivos à BMW Motorsports, divisão de competição da marca. Porém, o que mais chama atenção mesmo é a cor vermelha utilizada no quadro, que dá mais vida ao modelo tradicionalmente vendido em cores sóbrias. Por ironia, justamente na versão que marca o fim de uma era, a despedida da R 1200 GS como a conhecemos há 32 anos.

Além disso, a versão Rallye traz o completo pacote de eletrônica embarcada: controle de tração (ASC), freios ABS e sistema de ajuste eletrônico da suspensão ESA Enduro. Com preço sugerido de R$ 80.900, está entre as versões top de linha da R 1200 GS.

A melhor “faz-tudo”

A introdução da refrigeração líquida no motor boxer foi motivada mais pela busca por potência do que pela ineficiência da refrigeração a ar. Atualmente com 110 cv, a BMW não conseguiria extrair mais cavalos e estava ficando para trás perante suas concorrentes Ducati Multistrada 1200, lançada em 2010, oferecia 150 cv; a recém-chegada Honda Crosstourer 1200 tem 129,5 cv. A atual cavalaria da R 1200 GS era mais que suficiente para manter altas velocidades de cruzeiro, auxiliadas pela boa e equilibrada ciclística da moto, mas a questão me parece ter sido mais de marketing do que propriamente a necessidade de mais potência.

Mas, além da mudança no motor, a R 1200 GS 2013 trará outras novidades que serão conhecidas no primeiro trimestre do próximo ano. Mas por enquanto, até como forma de homenagear o atual modelo, vale destacar as qualidades da atual bigtrail. Já tive a oportunidade de testar suas atuais concorrentes, e a BMW mantém-se ainda como a melhor faz tudo. A Ducati Multistrada 1200 pode ser uma moto mais esportiva no asfalto, porém fica devendo no desempenho fora de estrada. Já a Yamaha XT 1200Z Super Ténéré vai muito bem no off-road, mas não se equipara a GS no asfalto.

Impressões ao pilotar

Dotada de um motor com bastante torque desde baixas rotações, um câmbio suave e preciso e potência suficiente a R 1200 GS é também bastante dócil. No quesito conforto, destaque para o macio banco em dois níveis e sua excelente posição de pilotagem. Sem falar no conjunto ciclístico com os sistemas de suspensão diferenciados da BMW: Paralever e Telelever. Com o auxílio do ajuste eletrônico de suspensões eletrônicas demonstra maciez para superar obstáculos e ao mesmo tempo rigidez para uma pilotagem mais esportiva.

O que dizer do equilíbrio de uma motocicleta que pesa 229 kg em ordem de marcha e mesmo assim é fácil de colocar no cavalete central? Outro detalhe que impressiona a qualquer um que já tenha tido a oportunidade de guiar essa bigtrail é a facilidade de pilotagem. Apesar de seu banco alto (85 cm do solo), em movimento, a R 1200 GS demonstra bastante agilidade e docilidade.

Aquele tipo de motocicleta que, com o tanque cheio e a autonomia indicada no computador de bordo, transmite a sensação de se poderia ir a qualquer lugar do mundo com ela. Bastaria tempo e disposição. Do piloto, porque essa BMW R 1200 GS Rallye já vem pronta para tudo.

Um pouco de história

Em 1980, a BMW lançou uma improvável motocicleta: a R 80 GS, uma trail aventureira com motor de grande capacidade cúbica (800 cc). A primeira moto com essas características que hoje chamamos de aventureiras. Criticada na época, tornou-se um sucesso tanto fora da estrada quando dentro dela. Afinal, demonstrou sua capacidade off-road vencendo o Rall,y Paris-Dakar com Hubert Auriol já em 1981 e tornou-se um sucesso de vendas em todo o mundo, alcançado hoje o posto de BMW mais vendida em todo o mundo.

Apesar de seu controverso monobraço traseiro com eixo-cardã e freio a disco na roda dianteira (nunca antes utilizado em motos off-road), a GS provou ao longo dos anos suas capacidades na terra, sendo também uma grande moto de turismo. Uma espécie de Range Rover das motos, mesclando conforto e luxo para longas viagens com robustez para enfrentar caminhos mal pavimentados.

Ao longo de mais de três décadas de estrada, a GS original deu origem a outros modelos menores, como a 650 GS e 800 GS, e já superou a marca de mais de meio milhão de unidades produzidas. Prova mais do que irrefutável de que a ideia dos engenheiros alemães foi bem sucedida. Toda essa trajetória foi acompanhada pelo motor boxer de dois cilindros opostos e refrigeração a ar. Até agora.

Doni Castilho/Agência Infomoto