A pergunta que se faz hoje após a onda de investimentos anunciados por montadoras habilitadas ao programa Inovar-Auto é a seguinte: como ficarão os preços dos modelos que terão cidadania brasileira no futuro? A nacionalização faz crer que os valores sofrerão uma queda em relação à tabela dos que já são importados para o Brasil, certo? É bom o consumidor não se animar muito. Os indícios, por ora, não revelam esse caminho. Os executivos das marcas evitaram projetar qualquer cenário lá na frente durante a divulgação dos aportes financeiros.

É o caso das quatro grandes alemãs, que atuam no segmento premium. A BMW já admitiu que para viabilizar a fabricação local do Série 1, Série 3 e X1, os três modelos que ela deve produzir em Araquari (SC), é necessário importar tecnologia. E isso se traduz em custos, que seriam embutidos nos preços dos modelos. Desta forma, anularia o desconto motivado pelo fim dos impostos de importação, hoje em 30 pontos percentuais.

Segundo Torben Karasek, chefe interino da marca no Brasil, fabricar um BMW não é a mesma coisa que fazer um carro popular. “O Brasil tem fornecedores de ponta, mas teremos de trazer outros para atender nossas demandas”, avaliou. Já na visão de Martin Fritsches, diretor de vendas do grupo, é praticamente impossível afirmar hoje qual seria o percentual de redução no preço, “se é que isso virá a acontecer, pois há fatores como câmbio, política, custos de produção”, observou.

O diretor até admitiu cobrar perto de R$ 90 mil pelo modelo de entrada BMW 116i hoje tabelado em R$ 99.950 , mas teria de abrir mão de alguns equipamentos, como faróis de neblina e conectividade com celular, listou ele. “A sua aceitação pelo cliente vai nos dizer que rumos podemos tomar”, ressaltou.

Na apresentação dos investimentos da Audi no Paraná, que alcança R$ 504 milhões, nenhum executivo quis falar sobre valores para o A3 Sedan e a nova geração do utilitário Q3 ambos sairão da linha de montagem de São José dos Pinhais, na Grande Curitiba. Procedimento que se repetiu no anúncio feito esta semana pela Volks sobre a produção do Golf 7. Thomas Schmall, CEO da marca no Brasil, falou em um incremento de capital de R$ 520 milhões na unidade paranaense, mas não teceu comentário algum sobre alteração de preços com a nacionalização do carro. Na semana passada, o novo Golf começou a ser vendido no Brasil, por enquanto importado da Alemanha, com preço inicial sugerido de R$ 67.990.

Peças importadas

Um funcionário graduado da Mercedes-Benz, que pediu o anonimato, declarou ao site UOL que, numa primeira fase, vários componentes de modelos premium ainda serão importados. E citou a Audi como exemplo. Ele disse que esse índice de peças vindas de fora chegaria a 65%. Seria um contrassenso à exigência de desenvolver tecnologia localmente prevista pelo novo regime automotivo para a concessão de benesses em forma de redução de impostos. Mas, é provável que, com uma unidade no país, as marcas aumentem gradualmente o índice de nacionalização dos veículos, o que irá gerar mais benefícios fiscais.

Mitsubishi

Outro sinal de que a produção local não garante preço baixo é o do Mitsubishi ASX. Antes importado do Japão, o jipinho urbano passou a ser feito em Catalão (GO), numa fábrica já instalada (de onde sai o Pajero TR4) e que foi ampliada com o aporte de R$ 283 milhões. O desconto foi de apenas R$ 1 mil ou 1,2% para a versão de entrada do ASX em comparação ao modelo que era importado o carro custa agora R$ 83.490. A explicação dada pela marca japonesa à época era de que o valor do ASX já era baixo, uma vez que ele não sofreu acréscimo por conta da elevação do IPI em 30% no fim de 2011. No futuro, a Mitsubishi também fará no Brasil o sedã Lancer.

Soma-se ainda o fato de que as montadoras precisarão pagar a conta de todo o volume investido no país para erguer uma fábrica ou ampliar uma já existente. O próprio chefão da Mercedes no Brasil, Philipp Schiemer, disse que a amortização do investimento deve ajudar, no máximo, a manter preços “estáveis”. A montadora investirá R$ 510 milhões para construir uma unidade em Iracemápolis (SP), onde fará o Classe C, campeão de vendas da marca no país, e o SUV compacto GLA.

Cotas

O aumento imediato das cotas de importação foi um dos motivos que levou as marcas premium a se habilitarem rapidamente ao Inovar-Auto. Este benefício está previsto no programa a quem se compromete com a produção local. A Mercedes-Benz, por exemplo, atualmente não tem Classe A em número suficiente para atender à demanda. Com o anúncio da fábrica, resolverá essa questão logo.