Na quarta-feira, 11 de maio, foram votados três projetos de lei para a nossa cidade. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-PR), na falta de um representante paranaense, respondeu pela polêmica. A população em geral assiste aos acontecimentos.

Os deputados responsáveis pela proposta justificam seus projetos como medidas para diminuir a violência, sem maiores justificativas para o argumento de que restrições de horários de funcionamento teriam um impacto positivo nesse fator. Existiria, afinal, relação de causa e efeito entre as duas ações? Indo além, quais seriam os impactos negativos dessa decisão, e por que não, quais os impactos positivos de manter abertos esses estabelecimentos?

A tese de Ray Oldenburg, sociólogo americano e autor do livro "O Grande terceiro lugar" (The great Good Place), é que a modernização e crescimento da vida nas cidades causaram um enclausuramento. Ray se refere ao sentimento de estar sozinho na multidão no meio de uma cidade grande. As pessoas passam seus dias de casa ao trabalho, do trabalho para casa. São esses o primeiro e segundo lugar em que gastam a maior parte do tempo em suas vidas. Precisam, então, de locais para relaxar, se confraternizar, entrar em contato e conhecer outras pessoas. Precisam de um terceiro lugar.

Esses "terceiros lugares" podem ser contados entre a cafeteria, o restaurante ou bar, a boate e o clube. Alguns dos estabelecimentos figuram como pontos de encontro. Eles oferecem algo mais que simples produtos de consumo, oferecem uma vida comunitária. São essenciais para uma vida social saudável, para manter um senso de comunidade, aproximando os habitantes de uma cidade ou região, contribuindo para a difusão de informações e formação de redes sociais.

Para se ter uma idéia da importância desses lugares para a vida social e intelectual de uma comunidade, basta dizer que a primeira medida de muitos governos de perfil totalitário é tentar ou ordenar o fechamento dos mesmos. Sem um lugar para as pessoas se encontrarem, idéias não são trocadas, ações não são planejadas, pessoas descontentes não tem como saber se suas idéias são compartilhadas por outros, soluções não são discutidas. Eles fornecem um fórum neutro para discussões políticas, cujo papel democrático e social é bastante comum (mais alguém percebeu que o único lugar onde se discute religião, política e futebol é na mesa de bar?).

Com tudo isso, seria necessário o consumo de álcool? A questão é perigosa e implica a restrição da liberdade individual. Diversas pesquisas realizadas no exterior e citadas por Ray confirmam o que grande parte dos freqüentadores de tais estabelecimentos já sabem: casos de excesso e abuso são a exceção, não a regra. A maioria das pessoas bebe com calma, quase como uma desculpa para ter o que fazer enquanto conversa com seus amigos. O efeito que se procura na bebida é uma maior extroversão, não o excesso. Quanto à violência, Ray faz um comentário: onde é mais óbvio que ela ocorra? Em estabelecimentos comerciais abertos ao público, onde todos são observados por todos e há regularmente segurança, pois aqueles que exageram são retirados por seus acompanhantes, ou com o consumo de álcool em casa e nas ruas, longe dos olhos dos outros?

Já dizia o poeta Paulo Leminsky: "Curitiba não tem mar, tem bar". A correlação de bares abertos e o consumo de bebidas alcoólicas nesses locais com a violência é, na melhor das hipóteses, extremamente fraca e difícil de provar. As conseqüências da decisão, por outro lado, podem causar danos imprevistos à comunidade.

*Fábio Zugman é graduado em Ciência da Computação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná com mestrado em Administração pela Universidade Federal do Paraná/UFPR, onde atua como professor. É autor do livro "Administração para Profissionais Liberais" (Negócio editora/Elsevier, 2005).