Geraldo Almeida (FAO/UFPR)

Não podemos e não devemos procurar decifrar todas as possibilidades que a leitura nos dá. Os caminhos a serem traçados, ou encontrados, a partir da leitura, dependerão, intimamente, das intenções do sujeito que se relaciona com ela.

Um outro aspecto a ser considerado é de que o significado das palavras contidas num livro não será igual para todos os leitores que dele se apossar, pois cada um fará uma degustação diferenciada, e sendo assim, mensurar estes ou aqueles textos e seus respectivos efeitos, torna-se uma tarefa medíocre, e, portanto, desnecessária. Saber o que é agradável ao universo do leitor, e principalmente o que deseja ele, em um tão complexo universo, pode não ser algo pertinente ao trabalho do professor. No entanto, tentar compreender substancialmente, ou minimamente se for possível, como se dão esses caminhos, pode clarear um pouco das angústias daqueles docentes que boquiabertos ainda se perguntam: -Mas, por quê?

Quem realmente pode afirmar o que é agradável ou não para o leitor, seja ele infantil ou não, é ele mesmo. É no contato com o livro, na intimidade da relação que se desencadeia entre o amante e o amado, leitor e livro, que essa química acontece. Neste momento, dependendo das inscrições, neles contidas (memória do leitor e páginas do livro) e do "curso de vida" que tivera o primeiro, ou tem, sua experiência pode ser prazerosa ou não. E nesse caso, o prazer pode ou não ter sido desejado por ele. Pode ser que o leitor nem ao menos tivesse "buscado" aquela sensação. Pode ser que ele apenas tenha tomado o objeto, e aí, o que realmente vai importar é se o objeto agora possuído, preso entre as mãos, tem condições, poder, "persuasão estética", para promover novas emoções, ou fazer (re) surgir dentro das existentes, novas, ou ainda; despertar nele outras que poderão ser experimentadas pela primeira vez.

É preciso, porém, definir caminhos possíveis para que assim possamos ter parâmetros para promover, em sala de aula, processos tão antagônicos entre indivíduos tão diferentes. O planejamento para a construção escolar de leitores é tão complexo como o planejamento das outras atividades que envolvem o fazer escola. E o que é mais importante, é tarefa de todos, não só do professor de português. No entanto, a leitura precisa de um planejamento consistente, voltado à realidade do professor e da escola, do momento do mundo e das necessidades educativas. Claro que é necessário prever limites e ausências. Claro que é imprescindível levar em consideração as idades, as séries, os textos e o tipo de educação queremos proporcionar. Tudo isso não é formatação, tampouco engessamento da atividade com a leitura. Isso é um roteiro para aqueles que precisam assegurar que, pelo menos, o contato do aluno com o livro irá se dar em algum momento da vida escolar.

A leitura de livre escolha, o acervo aberto, uma bibliotecária simpática e um acervo minimamente constituído, podem completar um planejamento anual de leitura. O que não pode ser válido agora, já que mais um ano se inicia, é deixar que o trabalho caia na reprodução ou na pequinesa dos livros didáticos e paradidáticos, assim como nos manuais recebidos a cada início de bimestre. Há de se melhorar a oferta levada aos alunos. Há iguarias por toda parte, mas para encontrá-las é necessário estar à procura delas.

Sabendo do poder que o texto pressupõe, não nos falta esperança de que ele se torne uma espada penetrante na privacidade e na comodidade daqueles que agora passam a dominá-lo cada vez mais. Somente ele pode atingir tamanha influência, mas para isto é desejável que nós, profissionais da leitura, nos lancemos mais no universo do imaginário. Não podemos nos esquecer de nos abastecer sempre.

É importante que se conheça de tudo para saber a quais textos iremos direcionar o nosso amor. Senão, estaremos a vida inteira efetuando trocas por não saber exatamente o que devemos ter na memória, na estante, na mesa da sala de aula e no cesto de lixo atrás da porta.

"O que não é ligeiramente disforme parece insensível donde decorre que a regularidade, isto é, o inesperado, a surpresa, o espanto sejam uma parte essencial da característica da beleza. O Belo sempre é estranho." Baudelaire