A crise no mercado financeiro, já sob relativo controle, pode beneficiar a candidatura do senador José Serra. Esta a opinião de dois cientistas políticos, Fábio Wanderley Reis, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, e Marco Antônio Carvalho Teixeira, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica e da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo. Embora os pomposos títulos dos autores desse parecer, ambos merecem críticas. O primeiro parte da premissa de que há uma retórica terrorista e intimidatória de parte do governo, sustentando que a vitória de um candidato de esquerda pode comprometer ainda mais a situação econômico-financeira do País. Ao que se saiba, nunca algum membro do governo ou mesmo o candidato da preferência de FHC indigitaram algum candidato de esquerda como responsável pela geração dos temores que conturbaram o cenário econômico-financeiro. Foram analistas de investimentos, investidores, alguns bancos e especuladores que produziram desconfiança sobre a situação do Brasil e seu futuro, sob o possível comando de um novo presidente esquerdista. O que no Brasil se fez foi apenas constatar este fato e procurar desmenti-lo ou minimizá-lo, além de tomar providências para evitar seus já presentes efeitos.

O segundo analista repete o que disse o primeiro, comparando a situação eleitoral atual como um “quadro similar ao que ocorreu nas eleições de 1989, quando o cenário se polarizou entre Collor, taxado de candidato da estabilidade, e Lula, tachado de candidato da desestabilização. A diferença é que, agora, a polarização se dá entre o candidato do governo, José Serra, e Lula; porém o embate é o mesmo” – disse.

Ambos acham que o beneficiário da crise é José Serra.

Vemos nas insinuações e acusações sobre as responsabilidades pelas turbulências no mercado um injustificável maniqueísmo. Não há porque acusar este ou aquele candidato ou o governo pelo que vem acontecendo, nem tirar dos fatos a ilação de que Serra é o beneficiário. Esta é uma batalha em que não há vencedores. Uma batalha “shakespereana” em que o inimigo não tem mãe, ou paternidade, como em Mackbeth, e não existem vencedores.

Se a conclusão de que Serra é beneficiário resulta da convicção de que Lula, mesmo “light”, não conseguiu ainda convencer o mercado de que eleito dará estabilidade à nossa economia e finanças, por ter um passado de posições radicais de esquerda, cabe ao PT e seus aliados dar solidez às novas posições que hoje adota. Posições que, por não mais serem radicais, precisam ser suficientemente claras para convencer os que persistem em desconfiar.

Serra pode ter, para o mercado, maior credibilidade. Mas quem prova que o mercado ganha eleições?

Nem Lula é o candidato do mal nem Serra é o candidato do bem. E vice-versa. A crise, sabem hoje tanto Lula quanto Serra, prejudica a todos os candidatos. Quem, por seus efeitos ou denunciando pretensos culpados, acabasse conseguindo as preferências do eleitorado, elegendo-se, herdaria um país aos frangalhos, ingovernável. A crise prejudica o Brasil. A troca de acusações entre os candidatos e o governo, também. E também prejudicam o País as desconfianças do mercado que precisamos proclamar injustificadas. E, melhor do que isto, provar inquestionavelmente que são injustificadas. É hora de união dos candidatos em defesa do Brasil.