Pagar apenas uma passagem e poder pegar vários ônibus em um determinado espaço de tempo. Dentre as ideias em estudo que podem trazer mudanças para o transporte coletivo de Curitiba, a criação do bilhete único, se aprovada, será capaz de modificar a maneira como as pessoas utilizam os ônibus na capital.

Pela proposta, os usuários poderão comprar os bilhetes escolhendo por quanto tempo pretendem utilizar o transporte, seja por duas horas ou até pelo mês completo. O bilhete mensal, por exemplo, custaria hoje cerca de R$ 187, o equivalente ao vale-transporte recebido mensalmente pelos trabalhadores.

"Bilhete único seria muito bom", diz Jonatan. Foto: Felipe Rosa
“Bilhete único seria muito bom”, diz Jonatan. Foto: Felipe Rosa

Novidade recebida com otimismo por gente como o gerente de restaurante Jonatan Pereira, 29 anos. “Ter o bilhete único seria muito bom. Frequentei Maringá, lá é assim e funciona muito bem. Dá para comprar o bilhete e usar ônibus por até duas horas. Se for assim aqui também vai ajudar o povo”, opina.

Já para a vendedora Vilma Colaço, 33, o bilhete único até poderá ajudar, mas não acabará com os problemas dos passageiros. “Para mim não sei se vai compensar. Se valer por poucas horas não vai ajudar quem trabalha, quem pega ônibus pela manhã e depois, só no fim do dia. Hoje, o que importa mesmo é colocar mais ônibus nas linhas. Eles falam que não tem passageiro, mas os ônibus estão sempre lotados”, reclama.

Tramitação

"Se valer por poucas horas não vai ajudar quem trabalha, quem pega ônibus pela manhã e depois, só no fim do dia", afirma Vilma. Foto: Felipe Rosa
“Se valer por poucas horas não vai ajudar quem trabalha, quem pega ônibus pela manhã e depois, só no fim do dia”, afirma Vilma. Foto: Felipe Rosa

Proposto pelo vereador Bruno Pessuti (PSD), o projeto que cria o bilhete único – que já havia sido apresentado na legislatura passada – está em tramitação na Câmara Municipal. “O bilhete único é uma forma de tarifário temporal que existe em várias cidades do mundo. Além de beneficiar os usuários, ele proporcionará rotas mais eficientes, já que muitas pessoas não precisarão mais fazer a integração nos terminais. Assim, até a construção de novos terminais não será necessária. Hoje a forma de utilização do transporte coletivo não é inteligente. Quanto mais você usa, mais caro ele fica. Esta é uma das poucas soluções que pode ajudar a resolver o problema do transporte na cidade”.

A proposta já passou pela Comissão de Legislação, Justiça e Redação e agora aguarda análise da Comissão de Economia, Finanças e Fiscalização. Após apreciação dos colegiados, poderá ser votada em plenário. Caso seja aprovada, dependerá da sanção do prefeito Rafael Greca para entrar em vigor.

Viabilidade em xeque

Para o professor Lafaiete Neves, doutor em desenvolvimento econômico e membro da Plenária Popular do Transporte, a iniciativa pode ser benéfica para o sistema. ‘O bilhete único é uma proposta boa. Em São Paulo (onde foi lançado em 2004), ele aumentou a demanda pelo transporte coletivo, trouxe mais usuários para os ônibus. Lá ele ainda é interligado com o metrô e trens urbanos‘.

Já de acordo com o professor Eduardo Ratton, do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a administração municipal ainda não tem estrutura para operar o sistema de bilhetagem eletrônica. ‘Vi isso há mais de 40 anos na Europa. Mas aqui, a Urbs não tem estrutura para fiscalizar e gerenciar o bilhete único, sob o ponto de vista operacional. É cedo para implementar isso por aqui. Além da falta de estrutura isso geraria confusão, podendo ficar a gestão na mão das empresas‘, analisa.

Defensores e críticos

Procurada há mais de uma semana pela Tribuna, a Urbs não respondeu aos questionamentos sobre a viabilidade do projeto. Já o Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp) defende a modernização e transparência do sistema de bilhetagem eletrônica e a implantação de aplicativos para celular, para dar mais informações aos usuários, além de incentivar o uso do cartão transporte, com mais pontos de venda, aumentando assim a segurança dentro do sistema.

Para o presidente do Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Sindimoc), Anderson Teixeira, o bilhete único pode ser positivo para a população, mas ruim para os trabalhadores do sistema. “Quanto mais bilhete, menos cobradores. Em São Paulo foi assim. Lá apenas 5% dos usuários pagam a passagem com dinheiro, mas aqui ainda temos 45% dos pagamentos feitos assim”.

Quilômetro rodado

Para que o bilhete único possa ser adotado, segundo o autor do projeto, é necessário alterar a forma como as empresas recebem da prefeitura pelos passageiros transportados, mudando do sistema baseado na catraca girada, para a cobrança por quilômetro rodado. Proposta que também está em análise na Câmara Municipal.

“O custo do transporte é calculado por quilômetro, por isso, a remuneração tem que ser feita da mesma forma. Até 2010 era assim, depois mudou para a tarifa técnica, que trabalha com a estimativa de usuários e não com a realidade. Com a nova remuneração será possível criar tarifas sazonais, diferenciadas fora do horário de pico, como era a domingueira”, defende o vereador Bruno Pessuti.

Para os especialistas, no entanto, isto não traria vantagens para a população. “Não vejo mudanças para o passageiro. Teria sentido se existisse controle de custos. Você vai pagar por quilômetro rodado, mas não sabe o quanto ele custa exatamente, já que as contas não são transparentes. Quem tem interesse nesta mudança são as empresas, que vão receber mesmo com ônibus vazios. E isto pode implicar em piora no serviço”, observa Lafaiete Neves.

“Pagar por quilômetro rodado é dar garantia maior para as empresas, é bom para elas. Já foi feita uma tentativa há anos atrás, deu certo para elas, mas foi ruim para a prefeitura, que assim, gasta mais do que arrecada com o sistema”, analisa Eduardo Ratton.

Segundo o Setransp, que não respondeu ao questionamento específico da reportagem sobre o tema, há um desequilíbrio econômico-financeiro nos contratos de concessão. “Hoje a tarifa social, valor que a Urbs cobra para o usuário andar de ônibus, é de R$ 4,25. Já a tarifa técnica, valor de remuneração das empresas por passageiro, R$ 3,98. E o ponto de maior divergência se refere à projeção de passageiros. Desde o início do contrato, a estimativa de usuários nunca bateu com a realidade”.

Bilhete único pelo Brasil

São Paulo

R$ 3,80 ônibus (unitária)
R$ 5,92 tarifa integração (ônibus + metrô / trem)
R$ 140 mensal (ônibus ou metrô / trem)
R$ 230 mensal (ônibus + metrô / trem)
Benefício: Viagens diárias no espaço de até três horas. Nos cartões mensais até 10 embarques por dia.

Porto Alegre

R$ 4,05 ônibus (unitária)
Benefício: Cartão é aceito em todos os ônibus e no trem. A segunda passagem integrada é de graça, o usuário tem 30 minutos, após seu desembarque do primeiro ônibus, para embarcar em um segundo coletivo.

Maringá

Tarifa Convencional (Cartão Passe Fácil) R$ 3,40
Cartão Avulso (um crédito) R$ 4,00
Estudante 50% de desconto R$ 1,70
Horários de Bônus: desconto de 15% com cartão das 8h30 às 11h e das 13h30 às 16h. Integração em mais de 60 linhas da cidade. Ao utilizar o cartão, os usuários podem fazer integração com outras linhas em prazos variáveis, geralmente maiores que uma hora, sem pagar outra passagem.

Fontes: Prefeituras de São Paulo, Porto Alegre e Maringá.