A bióloga Márcia Arzua, responsável pelo laboratório de parasitologia do Museu de História Natural de Curitiba, participa do primeiro trabalho científico sobre carrapatos da região Neotropical – ilhas caribenhas, sul do México, América Central e da América do Sul. Ela assina a publicação, junto com outros dois pesquisadores brasileiros.

Márcia é a única bióloga do Paraná e uma das poucas brasileiras a trabalhar com carrapatos, parasitas vetores de doenças humanas e animais. Segundo a pesquisadora, das 800 espécies de carrapatos identificadas no mundo, 200 ocorrem nos países situados entre o México até a Patagônia.

Apesar da importância do assunto para as áreas de saúde pública e sanidade animal, as informações a respeito destes parasitas na região Neotropical estavam dispersas por instituições científicas dos países.

O projeto do qual Márcia participa vem justamente suprir esta lacuna. Financiado pela União Européia, através do Consórcio Internacional de Carrapatos e Doenças Transmitidas por Carrapatos, o trabalho culminará com o lançamento de um livro sobre as espécies da região Neotropical.

"Por enquanto não existe uma lista oficial sobre o assunto, ao contrário dos continentes africano e europeu, que já contam com trabalhos do gênero", explica Márcia Arzua. Segundo ela, a publicação que está sendo preparada trará, agrupadas, todas as informações dessas espécies na região Neotropical, desde identificação, distribuição geográfica, taxonomia e até as doenças a eles associadas", diz a pesquisadora.

O livro, que terá tradução para o inglês e espanhol, é uma espécie de guia dirigido a profissionais da área de saúde pública e sanidade animal. O objetivo da publicação, segundo Márcia, é fomentar pesquisas sobre carrapatos e zoonoses nos países da América Latina e Caribe. O guia também servirá para o treinamento de técnicos e estudiosos na identificação de carrapatos em geral.

Além da bióloga curitibana, a elaboração do projeto conta com a participação da pesquisadora Darci Moraes Barros-Battesti, do Instituto Butantan, de São Paulo, e do médico veterinário Gervásio Henrique Bechara, pesquisador e professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP). O trabalho teve a importante colaboração de pesquisadores dos países envolvidos no projeto.

Febre maculosa

Márcia Arzua explica que os carrapatos são grandes responsáveis vetores de doenças humanas e animais. A bióloga cita os casos de anaplasmose bovina, doença causada por uma bactéria transmitida pelo carrapato-do-boi (Rhipicephalus boophilus microplus). Quando contaminado, o gado desenvolve anemia, e pode causar grandes prejuízos aos rebanhos de corte e leiteiro.

A experiência da bióloga curitibana levou o Ministério da Saúde a convocá-la para aplicar um curso direcionado a trabalhadores da rede pública de saúde, em São Paulo. Realizado em maio, o curso teve a finalidade de preparar os profissionais de 11 estados brasileiros a identificar e conhecer os agentes transmissores (carrapatos) da febre maculosa, doença que acomete a população de localidades no estado de São Paulo e Minas Gerais, inclusive com registros de mortes.

A pesquisadora curitibana explica que a febre maculosa é causada por uma bactéria transmitida pelo carrapato-estrela (Rickettsia rickettsi). "Conhecido como carrapato do cavalo, ele é um dos principais agentes transmissores assim como o carrapato-amarelo-do-cachorro", conta Márcia.

Depois de entrar em contato com o ser humano, pelo tempo de seis horas, o carrapato transmite a bactéria. O desenvolvimento da doença é rápido, podendo levar à morte em apenas seis dias. Nesse período a pessoa contaminada apresenta febre, náuseas, dor de cabeça e feridas nas solas das mãos e dos pés. A medida que a doença avança as manchas atingem outras partes do corpo.

"Qualquer caso de sintoma que aparecerem nas redes pública e privada do país deve ser obrigatoriamente notificado ao Ministério da Saúde", informa Márcia. A bióloga explica que o surgimento da doença é recente no Brasil, cerca de uma década. "Assim como a febre maculosa muitas outras patologias existentes podem ter relação direta com carrapatos, mas por falta de pesquisas na área da saúde acabam dificultando a ligação entre o parasita e as doenças", comenta Márcia.