As negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) estão enterradas, mas um trabalho realizado pelo Instituto de Estudos do Comércio e das Negociações Internacionais (Icone) mostra que a integração hemisférica ainda é a melhor estratégia comercial para o Brasil, a única capaz de beneficiar amplamente tanto as exportações de commodities quanto as de bens industrializados.

"Hoje, retomar a Alca é praticamente impossível. Então, neste momento, o melhor é o Brasil tomar a iniciativa e buscar acordos bilaterais com o México, o Chile e a Comunidade Andina, pelo menos", defende o presidente do Icone, Marcos Jank. E completa: "O foco da política comercial deveria se concentrar na região da Alca.

A conclusão foi tirada a partir da análise do destino das exportações brasileiras. O estudo revela que Estados Unidos e América Latina (Mercosul, Comunidade Andina, México e Chile, por exemplo) absorvem 43% das exportações brasileiras – sozinhos, os Estados Unidos compram 43% das vendas externas brasileiras.

Um primeiro olhar sobre esses números indicaria que o elevado grau de absorção dos produtos brasileiros pelos outros países das Américas significaria que esse mercado regional já está conquistado e não apresenta oportunidades de crescimento. Mas não é o que concluem Jank e Sidney Nakahodo, autores de "A Dinâmica das Exportações Brasileiras: Preços, Quantidades e Destinos".

Superávit comercial

Entre 1996 e 2001, o superávit comercial do Brasil com a América Latina ficou praticamente estável em produtos de média-alta tecnologia (veículos, máquinas, químicos), média-baixa tecnologia (produtos metálicos, ferro e aço, vidro, cerâmica, jóias), baixa (calçados, têxteis, móveis, papel) e alta tecnologia (aviões, equipamentos de telecomunicações e informática e farmacêuticos).

O déficit comercial também se manteve praticamente estável em commodities do agronegócio e nas minerais e metais. O quadro começou a mudar francamente em favor do Brasil entre 2002 e 2005. Nessa fase, os saldos positivos passaram a crescer e os déficits têm recuado ano a ano.

Quando o estudo faz a mesma comparação no comércio com os Estados Unidos, revela que também vem crescendo anualmente, a partir de 2001/2002, o superávit nas categorias de baixa, média-baixa e commodities agropecuárias.

Desde 1999, o déficit na balança bilateral de produtos de média-alta tecnologia tem recuado e em 2005 esteve próximo do equilíbrio. Já os produtos de alta-tecnologia passaram de déficit para superávit em 2001, mantiveram-se com sinal positivo até meados de 2004 e voltaram ao negativo no final daquele ano.

Os superávits com os EUA continuam crescendo apenas em média-baixa tecnologia e commodities agrícolas. Desde 2004, vê-se desaceleração em baixa tecnologia e no grupo minerais, metais e combustíveis. "O quadro pode melhorar muito mais se buscarmos acordos na região", diz Jank. Ele argumenta que acordos comerciais podem reduzir barreiras impostas a produtos brasileiros nos mercados regionais.