O presidente Lula mantém estreitas relações com o presidente esquerdista da Venezuela, Hugo Chávez, e não esconde suas simpatias para com o ditador cubano Fidel Castro. Os três formavam, até há pouco, os pilares do esquerdismo nos governos latino-americanos. Mas o time está crescendo. Os últimos passos do presidente da Argentina indicam que aquele país começa a integrar-se ao bloco em que não é só o antiamericanismo o traço comum. A socialização e a nacionalização dos bens de produção e a promessa de amplos programas sociais são pilares dos programas desses governos.

Agora, passa a integrá-los mais um, o da Bolívia, onde o ?cocalero? Evo Morales ganhou as eleições. Um fato importante, pois não se trata de uma simples vitória das esquerdas no país vizinho, mas também uma mudança radical com a ascensão de um índio ao poder. Nos países latino-americanos, mesmo naqueles em que a população indígena é majoritária, os brancos descendentes de espanhóis, portugueses e outros povos europeus sempre estiveram no comando político e no domínio de outras áreas, em especial a econômica.

O jornal britânico The Guardian faz uma advertência a esses novos dirigentes latino-americanos: que aprendam a lição de Lula, também eleito como uma mudança e uma esperança, mas que, ?no governo, tem sido mais cauteloso e conservador, indo ainda mais além das exigências do Fundo Monetário Internacional e sacrificando as reformas sociais para pagar as enormes dívidas externa e interna?. Acrescentam as articulistas Sue Branford e Hilary Wainwright: ?Pior ainda, desde maio, uma série de revelações dramáticas mostrou que o PT esteve envolvido no mesmo tipo de corrupção contra a qual os ativistas se aliaram ao partido?.

Para o Brasil, a formação desse bloco de esquerda e a política externa do governo Lula provoca dúvidas, senão temores. Lembremo-nos que o nosso presidente, quando ainda candidato, foi à Europa e apoiou o movimento em favor de subsídios para a agricultura francesa. Hoje, saímos decepcionados da reunião de Hong Kong, onde lutamos contra aqueles subsídios que prejudicam os nossos agricultores e as nossas exportações, pois os países da União Européia e os Estados Unidos não se dobraram aos nossos argumentos e decidiram jogar para as calendas qualquer decisão nesse sentido. Como candidato, Lula foi a favor dos subsídios europeus e, como presidente, tem de ser contra eles.

As posições ideológicas não foram boas conselheiras e fizeram com que, no passado, o político que veio a ser presidente do Brasil trabalhasse contra os interesses do seu próprio país.

Agora, com a eleição de Evo Morales na Bolívia, apoiado aberta e entusiasticamente por Lula, algo parecido pode acontecer. Morales é favorável à nacionalização das empresas de petróleo. Elas são a maior riqueza boliviana e, em sua maioria, pertencem à brasileira Petrobras. A nacionalização atingiria a nossa grande empresa petrolífera e quem já gritou nas ruas ?o petróleo é nosso? não terá autoridade para voltar-se contra o ?cocalero?, se ele proclamar que o petróleo de lá é boliviano.