Pelas contas da Agência Espacial Brasileira (AEB), o investimento feito pelo governo brasileiro na formação, treinamento e carreira do astronauta Marcos Pontes, que pediu ao comando da Aeronáutica para ir para a reserva menos de um mês após retornar da Estação Espacial Internacional (ISS), ficou entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões. O cálculo foi apresentado hoje pelo presidente da AEB, Sérgio Gaudenzi, em entrevista à reportagem

Apenas a missão de dez dias no espaço – sendo oito a bordo da ISS – custou US$ 10 milhões, pagos à Agência Espacial Russa. O valor sobe tanto se for levado ainda em consideração o custo de oito anos de treinamento pela Nasa, em Houston (EUA), onde ele se formou como astronauta. "Se você somar tudo, vai chegar seguramente a esse valor, fácil", calcula Gaudenzi

Ainda assim, ele considera que o investimento valeu a pena, mesmo que Pontes tenha decidido abandonar a carreira militar para se dedicar a palestras e a projetos na área de educação. Para Gaudenzi, a viagem de Pontes ao espaço e a participação do País no programa da ISS deram visibilidade internacional ao programa espacial brasileiro, o que abriu caminho para parcerias com Rússia, Ucrânia, EUA e União Européia. "O programa teve uma divulgação extraordinária. Espero que isso repercuta no Congresso na hora de definir o Orçamento.

Hoje, no entanto, a reação no Congresso era outra. Vários parlamentares tiveram reações que variavam entre o lamento e a indignação. "Foi um dinheiro e tanto. E agora, quando ele poderia partilhar esse aprendizado com colegas, pede o afastamento", observa o deputado Walter Pinheiro (PT-BA). Integrante da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, Pinheiro disse esperar que a frustração com o episódio de Pontes não afete o investimento no Programa Espacial Brasileiro. "É preciso que o governo crie mecanismos de proteção, peça contrapartidas para evitar que o investimento acabe sendo desperdiçado", avalia.

O deputado Alberto Goldman (PSDB-SP) destacou o fato de que Pontes tenha entrado para reserva aos 43 anos. "Muitos imaginaram que o astronauta permaneceria na carreira por patriotismo. Mas, no caso, o que mais importou foram os interesses pessoais." Goldman, que é da mesma comissão, avalia ser indispensável a criação de regras para garantir a permanência de futuros astronautas no serviço público

Orlando Fantazzini (PSOL-SP) teme que o desfecho da história do primeiro astronauta brasileiro acabe respingando no próprio Programa Espacial Brasileiro. "Foi uma esfriada de ânimo. Ele aprendeu bastante com dinheiro público e agora vai dividir experiências com o setor privado. É claro que isso frustra."

Sérgio Gaudenzi repetiu hoje que não se sente traído ou frustrado pelo afastamento do astronauta. "Se ele sair da área espacial e for trabalhar em algo totalmente diferente, aí sim, eu vou ficar frustrado. Se ele permanecer na área, acho que tudo bem.

Pontes, no momento, está em Houston com a família. "Ele deve voltar ao Brasil em junho. Aí vou conversar com ele", diz Gaudenzi.