Duas adolescentes passaram oito dias feridas e perdidas na mata em Mirabela, norte de Minas Gerais, bebendo água de um riacho e se alimentando de jatobá, uma fruta nativa do cerrado. Eliane Fiúza e Cilene Silva, ambas de 15 anos, foram encontradas ontem (09) com várias fraturas, sem conseguir andar, mas não correm risco de vida.  

No domingo, dia 1º, elas saíram a pé para visitar o trabalhador rural José Messias, tio de Cilene, e se perderam numa região conhecida como Cabeceiro, a cerca de 20 quilômetros da cidade. As adolescentes contaram que já era noite quando viram um reflexo de água e pensaram ser a luz de uma casa. Seguiram rumo à luz e caíram de um paredão de cerca de 30 metros  local conhecido como Cabeceira da Chapada. Elas tiveram várias fraturas. Parte das roupas das adolescentes ficou pendurada em galhos de uma árvore próxima.

Cinco dias depois do acidente os familiares ficaram sabendo do sumiço das adolescentes. Quando Messias visitou a cidade e disse que a sobrinha e a amiga não haviam chegado a sua casa. As famílias não comunicaram o desaparecimento das meninas às polícias Militar e Civil.

De arrasto – Cilene e Eliane tiveram fraturas de bacia e Eliane quebrou um dos tornozelos na queda. Sem poder andar, durante estes oito dias as meninas se arrastavam até um riacho para beber água e pegar jatobás. As adolescentes foram encontradas por parentes de Cilene por volta das 12h de segunda-feira.

Ambas continuam internadas no Hospital São Sebastião de Mirabela. Segundo o médico ortopedista José Antônio Rodrigues, que atendeu as adolescentes, elas só deverão voltar a andar em 60 dias. ?Elas estavam muito desidratadas, agora necessitam de repouso absoluto, porque foram fraturas graves?, disse o médico.

Sem fome – ?Pela graça de Deus nós estamos vivas?, agradeceu hoje Cilene. ?A serra é mais alta que um prédio e nós pensamos que ninguém ia nos achar mais. Não passamos fome, só que para comer o jatobá é preciso tomar muita água e eu tinha de ir arrastando até o rio porque minha amiga quase não conseguia andar?.

Bastante emocionada, a mãe de Eliane, Jaci Fiúza, disse que a filha ?nasceu de novo?. Muitos moradores foram visitar as adolescentes no hospital de Mirabela, comovidos com a história.

Jatobá – O professor do Núcleo de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Paulo Sérgio Nascimento Lopes, um estudioso das frutas do cerrado, disse ter sido importante para a sobrevivência das adolescentes o fato de terem se alimentado do jatobá.

?É uma fruta rica em vitamina E, ferro, fósforo e cálcio, além de ter componentes energéticos. Isso, certamente, ajudou a sustentá-las e contribuiu bastante para a sobrevivência delas.?