Kirchner e Lula: afinação com
o Brasil sobre Alca e Mercosul.

Brasília

– Favorito nas pesquisas de opinião, o candidato do governo argentino à sucessão presidencial, Néstor Kirchner, deixou clara ontem a afinação de seu projeto para a área externa com a estratégia do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao final de um encontro de cerca de uma hora com o brasileiro, Kirchner reconheceu que não se entusiasma com as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

O candidato repetiu ainda que pretende recuperar o tempo perdido no aprofundamento do Mercosul e dar vazão ao processo de integração sul-americano, duas das prioridades da política exterior de Lula. Mas completou que não recairá na discussão frívola sobre quem assumirá a liderança, se a Argentina ou o Brasil, como almejam o Palácio do Planalto e o Itamaraty.

“Não teremos relações carnais com o Mercosul, mas uma relação solidária, voltada para uma integração clara e concreta e com o objetivo de impulsionar as economias e reduzir a exclusão social. Quanto à Alca, nós veremos no momento oportuno se a levamos ou não adiante. Você o disse”, repondeu, ao ser questionado se suas declarações não estariam revelando seu entusiasmo nulo para com a Alca. “Seria um retrocesso discutir questões frívolas, como qual país será o líder desse processo de integração. Precisamos levar esse projeto com maturidade.”

Em um passo mais ambicioso, o atual ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna, defendeu a negociação direta de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e os Estados Unidos, até mesmo como etapa necessária para viabilizar a Alca, no futuro. No final de abril, Lavagna foi convidado por Kirchner para continuar no cargo, se eleito for.

Ontem, o ministro acompanhou o candidato em sua visita a Lula e deixou claro que aceitou a indicação. A discussão do chamado “acordo 4+1” vem sendo defendida publicamente pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e será incluída nas conversas que ele terá com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Robert Zoellick, no dia 27.

“Será melhor avançarmos no acordo 4+1. É perfeitamente possível. Mas prefiro chamá-lo de 1+1”, afirmou Lavagna, em alusão a um formato mais unido para o Mercosul. “Essa negociação não inviabiliza a própria Alca, que pode ser construída a partir de acordos entre os blocos regionais”, completou.

Expressas também durante o encontro com Lula, as declarações de Kirchner e de Lavagna à imprensa marcaram a distância entre a estratégia que pretende montar, se vencer as eleições, e o modelo preferido pelo seu principal adversário, Carlos Saúl Menem, quando presidiu a Argentina, de 1990 a 1999. Embora envolvido com os compromissos do Mercosul, a política de Menem desencadeou uma série de atritos com o Brasil e priorizou as chamadas “relações carnais” com os Estados Unidos, com o qual chegou a sondar a possibilidade de um acordo de livre comércio.