A demora do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), para nomear o novo reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) fez com que a Associação dos Docentes da Unicamp (Adunicamp) e um grupo de professores alertassem o Palácio dos Bandeirantes de que a indicação de um nome que não respeite o resultado da consulta acadêmica, feita em março, e corroborada pela lista tríplice encaminhada pelo Conselho Universitário (Consu) ao governador, no começo de abril, será encarada como uma intervenção e um golpe contra a autonomia de escolha da universidade.

“Passadas duas semanas desde a elaboração de lista tríplice para a indicação, por vossa excelência, do próximo reitor da Unicamp, começam a circular na universidade ruídos no sentido de que vossa excelência estaria propenso a não indicar o primeiro nome da lista elaborada pelo Conselho Universitário, instância deliberativa máxima da instituição”, diz o documento da Adunicamp.

O processo de escolha do novo reitor da Unicamp para os próximos quatro anos começou no dia 8 de março, quando 36 mil votantes da comunidade acadêmica (professores, alunos e funcionários) escolheram entre os quatro candidatos os nomes do ex-reitor e professor da Faculdade de Engenharia Agrícola José Tadeu Jorge e do diretor e professor da Faculdade de Ciências Médicas Mário José Abdala Saad para disputar o segundo turno nos dias 20 e 21 de março. Tadeu Jorge acabou eleito com 53% dos votos.

Pelo pleito, o resultado é submetido ao Consu, que elabora uma lista tríplice de nomes encabeçada pelo primeiro colocado e tendo como segundo nome Saad, nome mais próximo do atual reitor da Unicamp, Fernando Costa. É o governador quem escolhe da lista o nome do reitor – por tradição, indica o primeiro. O prazo vence na sexta-feira, 19.

Para a Adunicamp, “um reitor que não fosse o nome escolhido pela comunidade seria recebido internamente como interventor, dificultando enormemente a complexa tarefa de gerir uma instituição responsável pela produção de cerca de 15% do conhecimento novo produzido no país, com prejuízo para todas suas atividades: de ensino, pesquisa e interface com a sociedade”. A associação representa 2,1 mil professores e pesquisadores.

No documento, a associação dos docentes lembra também que todos os candidatos assinaram durante a disputa um documento em que só aceitariam assumir como reitor indicado pelo governador, caso seus nomes fossem os mais votados na consulta acadêmica.

Um grupo de 134 professores também se organizou em rede e lançou um manifesto intitulado “Manifestação pela institucionalidade da Unicamp”. No documento, eles afirmam: “manifestamos nosso mais completo repúdio a toda e qualquer atitude que busque desestabilizar a institucionalidade da Unicamp, sob pretextos políticos menores. Este tipo de atitude, de algumas poucas pessoas da própria da universidade, é uma tentativa de golpe contra o processo democrático de indicação de dirigentes na Unicamp e mancha o espírito acadêmico”.

A lista tríplice, liderada por Tadeu Jorge, foi enviada ao governador em 3 de abril. Caso a indicação não seja feita até a sexta, a universidade fica sem reitor, e quem assume é o atual coordenador-geral, Edgar Salvadori de Decca, que foi um dos quatro candidatos do pleito e assina o manifesto. “Eu defendo a legitimidade do processo de consulta e de composição da lista tríplice e tenho a confiança de que o governador do Estado vai ser sensível para confirmar o primeiro nome da lista”, afirma Decca. A assessoria do governador Geraldo Alckmin foi procurada pela reportagem, mas não retornou os pedidos até a tarde desta quarta-feira, 17.