Brasília (AE) – O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, telefonou na manhã de ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para manifestar seu pesar pela morte do eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado por agentes da Scotland Yard com oito tiros no último dia 22, em Londres, sob suspeita de ser um homem-bomba. A conversa durou cerca de dez minutos, segundo nota divulgada pela Secretaria de Imprensa da Presidência da República.

Na nota, a secretaria relatou que Blair, ao manifestar seu pesar pela morte de Jean Charles, disse a Lula que a Grã-Bretanha está passando por momentos difíceis em decorrência de atos terroristas. Blair teria assegurado a Lula que uma comissão independente está apurando as circunstâncias do episódio, ocorrido numa estação do metrô na capital inglesa.

Já Lula, que dedicou a manhã de ontem para avaliar a crise política, disse a Blair, durante o telefonema, que compreende as dificuldades vividas pelos britânicos e agradeceu o gesto do primeiro-ministro em telefonar para falar sobre o caso. Lula, no entanto, relatou a Blair que conversou dias antes com os pais de Jean Charles. Seu Matozinhos e dona Maria – contou o presidente – estão sofrendo com a perda do filho.

?O presidente ressaltou (no telefonema) que é preciso evitar que situações semelhantes aconteçam, provocando a morte de pessoas inocentes?, destacou a nota.

O presidente nunca se pronunciou em público sobre a morte do brasileiro. O Palácio do Planalto apenas divulgou nota lamentando o ocorrido. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, foi quem externou publicamente o repúdio do governo à decisão dos agentes da Scotland Yard de atirar em Jean Charles.

Na segunda-feira, o embaixador da Grã-Bretanha no Brasil, Peter Collecott, e o subchefe da Scotland Yard (a polícia britânica), John Yates, estiveram em Gonzaga, cidade do interior de Minas Gerais, para pedir desculpas aos pais de Jean Charles pelo erro cometido pelos agentes policiais. No encontro, não foi estabelecido o valor da possível indenização que será paga pela Grã-Bretanha à família do migrante brasileiro. Jornais de Londres apostam que esse valor deve chegar a US$ 1 milhão (cerca de R$ 2,3 milhões).

Advogada da família Menezes desembarca hoje em Gonzaga

Londres (AE) – A advogada Harriet Wistrich, que juntamente com a colega Gareth Pierce representa a família de Jean Charles de Menezes, brasileiro morto por engano pela Scotland Yard, desembarca hoje em Gonzaga, Minas Gerais, onde se reunirá com os pais da vítima.

?Estou indo ao Brasil a pedido dos familiares de Menezes para discutir os procedimentos legais do caso, como o acompanhamento da investigação independente sobre a ação policial?, disse Wistrich antes de embarcar na capital britânica.

Um dos principais motivos da viagem será o de discutir a indenização que a família de Menezes exige das autoridades britânicas.

Wistrich não quis comentar a proposta da Scotland Yard. Mas fontes próximas ao caso afirmam que as advogadas ficaram irritadas com a visita surpresa recebida pelos familiares de Menezes e teriam os aconselhado a não se pronunciar sobre o assunto antes da chegada de Wistrich no Brasil.

Jean Charles mantinha seus pais em Gonzaga com parte do dinheiro ganho trabalhando em Londres como eletricista.

A morte de Menezes, que foi alvejado por agentes da Scotland Yard com sete tiros na cabeça e um no ombro no dia 22 de julho na estação de metrô de Stockwell, praticamente desapareceu da cobertura da imprensa britânica.

Ontem, no entanto, o caso mereceu uma breve atenção após ser revelado que o primeiro-ministro Tony Blair havia telefonado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para novamente apresentar suas desculpas pelo erro policial.