O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) adotou um tom irônico para comentar o adiamento da divulgação da eficácia da Coronavac. Em live nesta quinta-feira (24), ele afirmou, sem apontar dados, que a eficácia “parece que está lá embaixo“. Os dados de eficácia da Coronavac, fruto de uma parceria do Instituto Butantan com a chinesa Sinovac, estavam programados para serem anunciados na quarta-feira (23).

Nesta quinta-feira, véspera de Natal, o Brasil atingiu à marca dos 190 mil mortos pelo coronavírus.

O governo de São Paulo, porém, adiou a divulgação dos resultados, mas garantiu que ela “é eficaz”. Nesta quinta, o governo da Turquia afirmou que o imunizante tem eficácia de 91%.

A declaração de Bolsonaro aconteceu durante transmissão ao vivo em suas redes sociais, na véspera do Natal. No Brasil, o número de mortes pela Covid-19 já supera as 190 mil pessoas.

“Só por curiosidade, a eficácia daquela vacina lá em São Paulo parece que está lá embaixo. Não vou divulgar percentual aqui porque, se eu errar em 0,0001%, eu vou apanhar da mídia”, afirmou o presidente. “Mas o percentual parece que está lá embaixo, levando-se em conta a outra [vacina, provavelmente se referindo à Pfizer]”, disse o presidente.

A vacina Coronavac é alvo de disputa entre o presidente e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). O governo federal chegou a anunciar em outubro um memorando de entendimento para adquirir cerca de 40 milhões de doses da imunização, mas cancelou o negócio por ordem pública de Bolsonaro.

Agora, no entanto, a vacina ironizada pelo governo Bolsonaro é apontada como peça fundamental no programa de imunização brasileiro.

O ministro Eduardo Pazuello (Saúde) divulgou na semana passada que chegaram ao SUS (Sistema Único de Saúde) 24 milhões de doses contra o novo coronavírus em janeiro –9 milhões são da Coronavac. O Ministério da Saúde também divulgou nesta semana que pretende adquirir 100 milhões de doses da vacina do Instituto Butantan em parceria com a Sinovac.

O presidente também afirmou que não vai assumir nenhuma responsabilidade por eventual efeito colateral de uma vacina contra o novo coronavírus, principalmente quando se tratar de uma vacina de uso emergencial.

As vacinas aprovadas até o momento no mundo, porém, mostram perfis de segurança adequados atestados em suas primeiras fases de pesquisa.

Bolsonaro disse que quem está com “pressa que se responsabilize”. Também insinuou que alguns governadores, que defendem a vacinação imediata, que assumam um compromisso, para que a população possa cobrá-lo em caso de efeitos adversos.

“Quero deixar bem claro que na bula dessa vacina vai estar ‘não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral’. A adesão é sua. Aí se fala do termo de responsabilidade. Tem gente que quer que eu baixe uma medida provisória e diga que a responsabilidade é minha, do governo federal. Não vou assinar isso”, disse o presidente.

“Não vou aceitar que uma vacina que não está devidamente comprovada ainda, está na terceira fase, experimental. Eu não vou me responsabilizar, porque pode ser que não aconteça nada. Pode ser que seja efetiva, que atinja seus objetivos. Eu não posso me responsabilizar por isso aí. Quem está com pressa que se responsabilize”, disse.

“Se o governador do seu estado acha que você deve tomar, inclusive um falou que tem que ser na marra, tem que tomar de qualquer maneira, ele que assine o termo de responsabilidade. Se alguém tiver efeito colateral, vai para cima dele”, disse, em provável referência a Doria.

Sem citar nomes, o presidente também ironizou a viagem do governador paulista para Miami, logo após ter anunciado novas restrições para conter o avanço do novo coronavírus.

Doria, no entanto, abandonou sua viagem e retornou ao Brasil. Ele publicou um vídeo na internet em que disse que não tem “compromisso com o erro”.

Bolsonaro contou que permaneceu em São Francisco do Sul (SC), entre sábado (19) e esta quarta, argumentando que foram umas pequenas férias, embora tenha trabalhado.

Para marcar posição em relação a Doria, disse que as férias dele foram programadas e que ele não “fechou” a capital federal para em seguida viajar. “Foi um pequeno afastamento aqui de Brasília, programado, planejado. Eu não fechei Brasília, se bem que eu não tenho esse poder, prefeito tem, governador pode fechar o que quiser”, disse o presidente.

“Eu não posso fazer nada, mas eu não faria de qualquer maneira. Eu dispenso alguma instituição me dar esse poder porque eu jamais agiria como um ditador, jamais”, afirmou.

Em outro momento da transmissão, o presidente resgatou novamente o tema. “As minhas pequenas férias de cinco dias foram planejadas, eu não voltei para cá por qualquer outro interesse, não”, disse, com um sorriso irônico.

Ao término da live, ao comentar a baixa audiência, o presidente se queixou do fato de o programa de uma rádio não ter transmitido o vídeo. Ele foi informado então que o canal estava suspenso por ter tratado de pandemia.

Bolsonaro reclamou de censura. “Não pode falar da pandemia, não? Tem que falar que a hidroxicloroquina mata, que a Ivermectina mata e que a vacina, a Coronavac, é que vai salvar todo mundo, é isso?”