Chemello (à dir. ao lado de Carvalheiro):
“Tenho temor neste acordo.”

Brasília

(AG) – O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Jaime Chemello, levantou dúvidas sobre a aliança entre o PT e o PL para as eleições presidenciais, acertada na última quarta-feira. Segundo dom Jayme, um acordo entre dois partidos tão diferentes pode fazer com que surjam dúvidas éticas. – Tenho temor grande nesse acordo que visa apenas eleger um candidato. Não sei até que ponto nesse jogo de eleição entra dinheiro – disse o bispo, ao lado do vice-presidente da CNBB, dom Marcelo Carvalheiro.

Dom Jayme disse que não tem nenhum indício, por enquanto, de que possa haver problemas de corrupção com a formação dessa aliança. Mas esclareceu que depois das eleições podem haver cobranças por parte dos aliados. Segundo o bispo, algumas pessoas do PT teriam manifestado essa mesma preocupação, e a população terá que acompanhar como o partido lidará com essa possibilidade.

O bispo afirmou que não quer transformar a situação em uma guerra religiosa, mas confirmou que ficou preocupado com a aliança. O PL é estreitamente ligado aos grupos religiosos evangélicos, principalmente a Assembléia Universal do Reino de Deus. – Acho que o partido (PT) pode perder votos dos católicos mas também de outras áreas da sociedade, mas não por questões religiosas. Pode perder de uns e ganhar de outros – afirmou.

Dom Jaime ressaltou, ainda, que, pelo que tem conhecimento, o senador José Alencar (PL-que será o candidato a vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, é uma boa pessoa, e se a aliança teve a intenção de unir o capital e o trabalho, poderá se revelar boa, já que poderia beneficiar os trabalhadores. – Mas temo que esse acordo possa ter feito o PT capitular em alguns pontos – disse.

Na quarta-feira, dom Jaime recebeu o Lula, que foi apresentar o programa do partido para o combate à fome. Os dois não chegaram a conversar sobre a aliança, apenas sobre o programas da CNBB e do PT para o tema. – Eu prometi a ele que vou ler o documento, mas o programa da CNBB já existe e vamos dá-lo a todos os candidatos – afirmou.

Ontem, a CNBB apresentou uma avaliação da campanha da fraternidade deste ano, que tinha os índios como tema. Uma das ações da campanha, a coleta de assinaturas pedindo a aprovação do estatuto do índio, chegou a 800 mil nomes e foi considerado um sucesso pela Conferência. – Foi uma surpresa nossa o envolvimento das pessoas e o resultado que obtivemos – disse dom Jaime.

Partidos retomam conversas

Após a decisão nacional de coligação entre PT e PL em torno da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República, os diretórios paranaenses dos dois partidos estão tendo que retomar as negociações, e tentar um acordo para as eleições estaduais. No último final de semana, durante o encontro estadual do PT, foi vetada a coligação com o PL tanto na majoritária como na proporcional. Agora eles terão rever esta decisão. “Vamos nos adaptar à decisão nacional”, prometeu o presidente do PT no Paraná, vereador André Vargas.

Ele reconheceu que a tarefa não será fácil. “As direções partidárias existem para isso. Temos a responsabilidade de costurar internamente essa aliança”, afirmou. Apesar de afirmar que a prioridade é a eleição do Lula, a sucessão estadual não ficará de fora. Segundo Vargas a aliança tende a fortalecer também a candidatura do deputado federal Padre Roque Zimmermann ao governo do Estado. “É positivo para o Lula e pode ser positivo para o Padre Roque e a chapa proporcional”, opinou. O presidente regional do PL, deputado federal Pastor Bernardino Oliveira Filho, preferia uma coligação no Estado com o candidato do PDT, senador Álvaro Dias, e vinha preparando o partido para isso. Mas ao saber da decisão nacional, ele garantiu que abraçará a campanha do Padre Roque. “Como pastor, não prego casamento de aparência”, disse. O presidente do partido já iniciou as conversas com o PT para incluir o PL nas chapas majoritária e proporcional. O PL pretendia ter um candidato ao Senado, mas as vagas foram preenchidas com a aprovação dos nomes do deputado federal Flávio Arns e do advogado Edésio Passos, ambos do PT. “É uma questão de detalhes, que não prejudicarão o conjunto”, aposta o pastor Oliveira.

Agora o PL terá de acatar a chapa majoritária – governador e senadores – composta por PT, PCdoB, PCB, PHS e PV. “No Paraná nada está resolvido ainda. Vamos sentar para negociar e conversar sobre o destino dos dois partidos”, explicou o pastor. Para o candidato do PT, Padre Roque Zimmerman, ainda é cedo para definições. (Fabiane Prohmann e Agências)