Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil

Ao lado do vice-presidente José Alencar, Collor sorriu e também fez papel de neo-aliado do presidente Lula.

Brasília – Pela primeira vez no Planalto desde o impeachment, o ex-presidente e, agora, senador Fernando Collor (PTB-AL) disse ontem que quem o chamou de ladrão, no dia 2 de outubro de 1992, quando deixava de helicóptero o palácio, tem de se calar. ?Essas pessoas todas têm de calar agora, porque eu sou inocentado pelo Supremo Tribunal Federal?, afirmou, referindo-se a uma polêmica decisão da Corte de absolvê-lo das denúncias de corrupção.

 Ao chegar para uma audiência da bancada do PTB com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por volta de 17h30, Collor foi questionado pela imprensa se lembrava da reação de funcionários e curiosos que acompanharam o momento histórico em que ele se afastava temporariamente do poder. À época, ele saiu do palácio com o peito estufado e de mãos dadas com a ex-primeira-dama Rosane, rumo ao heliporto nos fundos do prédio, sob os gritos de ?ladrão?. Collor teve de ouvir ainda gritos intercalados de ?bandido?, ?safado?, ?fora daqui? e xingamentos diversos.

O ex-presidente entrou no Planalto pela portaria da frente sorrindo e tentando fazer o papel de vítima emocionada, sem disfarçar, no entanto, a empáfia e arrogância. ?Não estou tentando provar nada, fui vítima de uma injustiça?, afirmou. A uma pergunta se era fruto da impunidade, já que conseguiu se eleger senador mesmo depois de ser acusado de chefiar um esquema de corrupção no poder, ele riu. ?É cada pergunta que eu vou te contar. Não, absolutamente, ao contrário?.

Ele disse que não pretende subir a rampa e que não tem saudade do palácio. Mas admitiu que ?é uma sensação boa? retornar ao prédio onde viveu o auge da carreira política. Collor também fez papel de neo-aliado de Lula. ?A expectativa é que o encontro (com o presidente) se desenvolva e possamos trabalhar pelo desenvolvimento do Brasil.?

A uma última pergunta se tinha o poder de reescrever a história, Collor não respondeu, entrando no elevador que o conduziria para o terceiro andar. Dali, na parte lateral do palácio, ele saiu em outubro de 1992, três dias depois de a Câmara autorizar o Senado a abrir processo de crime de responsabilidade e afastá-lo do poder. A renúncia de Collor ocorreria no dia 29 de dezembro do mesmo ano. Lula evitou declarações públicas sobre o encontro.

Durante a campanha do segundo turno, no ano passado, o presidente e então candidato à reeleição disse em discurso no Palácio da Alvorada que pretendia ouvir as propostas do novo senador de Alagoas. O vice-presidente José Alencar disse, em entrevista, que Collor volta à cena política de forma ?legítima?, pois foi eleito senador da República.

Enquanto Collor foi falar com Lula, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) fez, ontem, um contraponto ao discurso realizado pelo colega Fernando Collor (PTB-AL), na semana passada, quando deu a sua versão sobre o processo de cassação a que foi submetido em 1992. Simon rebateu os argumentos de Collor de que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) instalada para investigar a denúncia feita por Pedro Collor – irmão do ex-presidente – de formação de quadrilha no governo seria uma farsa.

Segundo o peemedebista gaúcho, que integrou a CPMI, a comissão cumpriu todos os ritos para sua instalação. Simon lembra que após uma crise de identidade, quando não conseguia provas materiais sobre as informações colhidas em depoimento, apareceu o motorista Eriberto França que prestava serviço para a então secretária particular do presidente, Ana Accioly.

A partir daquele momento os fatos passaram a falar por si. ?Cheques migravam de contas fantasmas e acabavam depositados em contas de pessoas envolvidas no esquema de Paulo César Farias?, afirmou Simon. Paulo César, tesoureiro de campanha de Collor, foi acusado pela CPMI de comandar um esquema de corrupção no governo do qual faria parte também o ex-presidente e hoje senador petebista.