Muitos ainda alimentam muita curiosidade e desconfiança a respeito da Maçonaria. Mas o que poucos sabem é que ela está mais acessível que nunca, para uma sociedade outrora impenetrável. Com uma simples pesquisa e o preenchimento de um cadastro online, é possível se candidatar. Foi o que fizemos e a resposta chegou após poucos dias. É uma tentativa da organização (que prefere se chamar “discreta”, ao invés de “secreta”) de aumentar seu número de membros no país.

Antes de contar como foi, primeiro um resumo do que é a fraternidade e como ela funciona.

Uma reunião típica acontece assim: a porta se fecha. No interior da loja, os integrantes já estão reunidos e cabe ao chamado Primeiro Vigilante a tarefa de certificar ao Guarda do Templo que apenas “irmãos” estão presentes. O que acontece durante a cerimônia fica “a coberto”, jargão que se usa para assegurar a integridade dos segredos. E o que é realmente secreto diz mais respeito a gestos e símbolos usados para se reconhecerem entre si do que qualquer outra coisa.

O ritual pode variar muito de uma célula para outra, mas todas seguem princípios comuns, como a busca pelo conhecimento e a virtude e a superação dos vícios. Trata-se de uma sociedade entre iguais com princípios e rituais que buscam o que consideram o “bem”, não apenas de indivíduos, mas de toda a sociedade. “Há três pilares que chamamos de três efes, “filosofia, fraternidade e filantropia”, explicou um grão-mestre de São Paulo, cuja identidade manteremos preservada.

As origens da maçonaria se misturam com as da própria sociedade ocidental. Segundo Augusto Franklin Ribeiro de Magalhães, no livro Simbologia Maçônica, o primeiro registro de uma sociedade incipiente nos moldes da maçonaria data do ano de 704 A.C, quando o rei de Roma Numa Pompílio criou um sistema de colégios de artesãos com a liderança de sábios gregos. Tais colégios seguiam um regimento especial e celebravam reuniões (Logias) a portas fechadas, próximas aos locais de trabalho, com a hierarquia dividida em três grupos: Aprendizes, Companheiros e Mestres (mais tarde, Grão-Mestres).

Seus membros eram obrigados por juramento a proteger os segredos coletivos e a se ajudarem mutuamente. Reconheciam-se através de gestos e palavras que só eles poderiam identificar – o que, além de favorecer a segurança, garantia exclusividade no mercado. Uma prática que chegou intocada até os dias de hoje. O sigilo não dizia respeito à organização, mas ao próprio ofício em especial. Era tido como muito sério o conhecimento de construção dos muros, arcádias, alicerces e cúpulas, algo de que dependia a própria defesa das cidades na eventualidade de invasões. Especialmente, a principal preocupação era garantir ocupação para todos os integrantes, mesmo em períodos de pouca demanda por edificações.

No início, agremiações de arquitetos e artesãos, o modelo de grupos com encontros sigilosos para debater temas do cotidiano foi transportado para dentro dos monastérios, com o objetivo de erigir novos conventos e igrejas. A incipiente sociedade tornaria-se um regime religioso, adquirindo vestimentas e tons místicos que até hoje são mantidos. Os monges da Idade Média eram chamados “Massonerii”.

O ritual que a maçonaria conservaria através de sua história deriva da organização monástica e envolve alguns símbolos pagãos, como o compasso, a estrela e o Olho que tudo vê. Integrá-la, desde sempre, foi um privilégio respaldado pelo prestígio inquestionável da Igreja. Com o nome “maçonaria” (freemasonry), o primeiro registro oficial data de 1717, quando quatro lojas uniram-se para formar a grande loja de Londres. A partir desta fundação houve uma separação clara entre uma maçonaria que “acredita em Deus” (vinculada à Igreja Anglicana) e uma maçonaria que se pode chamar mais materialista, esta com suas raízes fincadas em terras francesas. Ultrapassado o método de lapidação artesanal das pedras, o objetivo principal da maçonaria se tornou “lapidar” seres humanos para que desenvolvessem todos os seus potenciais.

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Ainda que muito do seu prestígio se deva à autoridade eclesiástica, foi defendendo ideais iluministas que a maçonaria se firmou como uma das mais respeitadas entidades da sociedade ocidental. Especialmente após o movimento de independência das Américas do Norte e do Sul, a sua influência se tornaria mais óbvia. Entre os mais famosos maçons de todos os tempos estão o grão-mestre George Washington, comandante militar da Guerra de Independência dos EUA e primeiro presidente daquele país, o jornalista e abolicionista Benjamin Franklin, os militares libertadores Simón Bolívar e José de San Martín (respectivamente atores da independência dos países da América espanhola e da Argentina, Chile e Peru), Dom Pedro I, herói da independência do Brasil e até o Marechal Deodoro da Fonseca, que proclamou a República do Brasil em 1889.

Hoje em dia até soa ingênua a afirmação de que a maçonaria consiste em uma sociedade secreta. Com 4 milhões de integrantes no mundo e metade disso nos Estados Unidos, seus símbolos estão espalhados por todos os lugares, desde logomarcas até a nota de dólar. O “G” do popularíssimo serviço de e-mails do Google, o Gmail, faz menção aos símbolos da Ordem. Da mesma forma, há triângulos cruzados na logomarca da montadora francesa Citröen e em muitas outras marcas. No Brasil, mesmo com fatos históricos tão relevantes tramados dentro de lojas maçônicas há poucos integrantes em relação ao número total de habitantes – um total de 300 mil “irmãos”. Há uma corrente da maçonaria no Brasil disposta a mudar isso – mesmo com o nariz torcido das outras.

Com anúncios pagos no Google, o site amaconaria.com.br disponibiliza um formulário para interessados em ingressar na Ordem, mediante uma análise de intenções, currículo e trajetória de vida, além de requisitos como estar casado e contar com a anuência da esposa. Para integrá-la é necessário ser homem (a modernização de admitir mulheres ficou para depois, embora haja um clube exclusivo para as mulheres dos maçons e outros até para as crianças), acreditar em um princípio criador (que pode ser Deus, todas as religiões são aceitas) e ter o firme propósito de melhorar a si mesmo enquanto ser humano e à própria humanidade através de ações de filantropia.

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Iniciação

A reportagem foi recebida em uma loja da região central de São Paulo para um primeiro contato de “aproximação”. Após um tour pelo local, que lembra uma igreja, com teto pintado nos motivos dos símbolos da Ordem e marcado pela presença massiva de triângulos e cordas, além de um forte odor de incenso, houve uma breve palestra sobre suas origens e objetivos, em parte descritos anteriormente neste texto.

Sendo uma sociedade chamada iniciática, há um ritual de iniciação para o novo integrante, no qual ele é vendado e tem quatro horas de estímulos que são um segredo apenas para estes iniciados na maçonaria. “A integridade física e moral do iniciado é absolutamente garantida”, assegura o mestre. O integrante passa, então, por um processo de aprendizado com 33 pilares, cada um deles com duração de cerca de 6 a 9 meses e seu grau vai aumentando, até que chega na condição de “grão-mestre”.

Sobre o apadrinhamento de integrantes, o mestre maçom salienta que nem sempre há privilégios. “Fiz uma seleção para um emprego na qual o recrutador era um irmão e ele me explicou que havia um candidato mais qualificado que eu para aquela vaga”, disse. A fraternidade, no entanto, é um pilar fundamental. Os integrantes podem contar com uma rede internacional de apoio, sendo incentivado o contato com as lojas de outros países em caso de viagens internacionais. Além disso, é comum a presença de membros notáveis da sociedade no interior de lojas maçônicas. O atual governador de São Paulo, Marcio França, que concorre à reeleição, e o prefeito da capital, Bruno Covas, são membros notórios da maior associação maçônica do país.

Mesmo assim, não é incomum falar de maçonaria, ocultismo e planos de dominação universal – além de rituais de sacrifício com sangue de bode. Maçons acham muita graça nisso e o assunto é piada no meio. O excêntrico candidato à Presidência da República do Patriota, Cabo Daciolo, fez recentemente a ilação de que o líder das intenções de voto, o capitão Jair Bolsonaro, estaria cercado por maçons em um vídeo direto de seu retiro espiritual (internado após um atentado a faca, Bolsonaro não comentou).

Uma série documental da Netflix chamada ‘Maçonaria- Segredos Revelados’ explora a curiosidade do público e mostra o cotidiano pouco empolgante de uma loja inglesa. “Sem os rituais, seria um pouco monótono ser maçom”, resume um integrante. Um dos maiores best-sellers do ano de 2009 foi o romance de Dan Brown ‘O Símbolo Perdido’. Nele, o autor de ‘O Código da Vinci’ explora a curiosidade em torno do tema da sociedade fraternal e decifra algumas pistas supostamente deixadas pela maçonaria na capital americana, Washington. No Brasil, parte importante da cidade de Paraty foi desenhada de modo a homenagear a maçonaria. Ao sair da loja, perguntamos ao mestre se gostaria de manter o sigilo sobre qualquer dos assuntos tratados. “Está praticamente tudo na internet”, ele respondeu.

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